O CARETA
Polêmico, controverso, o livro proibido sobre a vida de Roberto Carlos pode ser baixado em qualquer terminal conectado à Internet.
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

segue a polêmica em torno do acordo firmado entre a Planeta, o jornalista Paulo César Araújo e Roberto Carlos para a retirada das livrarias de sua biografia não-autorizada, Roberto Carlos em Detalhes . A briga ocorreu assim: o escritório que representa o cantor alega que não houve censura, mas preservação da imagem do artista. “Ele não teria se insurgido se não fosse pelo sensacionalismo”, alegou o advogado Marco Antonio Bezerra Campos.
Para ele, o criador de clássicos da música popular como “Detalhes” e “Quero que vá tudo para o Inferno” não teria gostado da forma como alguns episódios de sua vida foram retratados. Araújo, que é o autor, suplicou que Roberto ao menos lesse o livro, e sugerisse os trechos que deveriam ser suprimidos. A resposta de Campos foi categoricamente curiosa: “Aí teríamos um caso de censura, [cabendo à ele] Roberto agir como um censor, determinando o que deveria ou não ser publicado”.
Ou seja, o livro não sai nem de uma forma, nem de outra. Indignado com a decisão, Paulo Coelho, colega de Araújo, na Planeta, bramiu contra a própria editora em artigo contra a decisão judicial: “Gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de “contexto desfavorável”. E não poupou críticas à atitude draconiana do cantor: “Estou chocado com a atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da 'invasão de privacidade' já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs”, escreveu, na Folha de São Paulo .
Se por trás da interdição existe um encoberto interesse do próprio Roberto em lançar a sua própria versão da história, não se sabe. O que todos conhecem é uma lenda a respeito de outro trabalho “proibido” do músico, o seu disco de estréia pela CBS, o mítico Louco Por Você , de 1961. Segundo essa divertida lenda, Roberto têm buscado em sebos de todo o Brasil cópias da primeira e única prensagem do disco para destruir todas as cópias restantes. Da mesma forma como ocorreu com Em Detalhes , o álbum de estréia do autor de “Lady Laura”, esse material vazou pela Internet afora, e pode ser baixado em fóruns de discussão na rede. O disco, diga-se de passagem, é excelente. Só resta entender se os motivos insondáveis que o levaram a caçar os últimos resquícios de seu exótico début fonográfico sejam os mesmos do livro – porém o livro (proibido) esclarece.
Falando no Em Detalhes , trata-se um trabalho exuberante e primoroso em formato de grande reportagem sobre a vida e o ambiente em que Roberto surgiu para o estrelato, muito bem compilado e documentado com textos e entrevistas. Muitas das fontes que falam na obra são fatos conhecidos, ou seja, a despeito das valiosas informações desconhecidas do grande público; um desses fatos interessantes é a forma como ele foi dispensado da “turma da Bossa Nova” (“você quer imitar o João Gilberto e nós já temos o João Gilberto”).
Araújo defende Roberto no livro diversas vezes, primeiro por entender que o cantor era real herdeiro da tradição representada por João, que amalgamava o gosto pelo antigo (Ari Barroso, Dorival Caymmi) e o novo (Tom Jobim, Vinícius de Morais) enquanto a “turma da Bossa Nova” renegava a Velha Guarda. Para ele, enquanto Carlos Lyra repudiava Francisco Alves e Orlando Silva, o cantor baiano os colocava como elementos representativos em seu trabalho. Roberto Carlos era, para ele, o vetor desde João Gilberto até o Tropicalismo, porque não repudiou a canção popular. O escritor ainda revela que o violonista viu Roberto cantar “Brigas Nunca Mais” na famosa Boite Plaza, um dos berços da Bossa Nova.
Outra é que Roberto Carlos, ao contrário do que se fazia em matéria de rock no Brasil – cantores consagrados fazendo versões de gosto duvidoso para sucessões dos anos 50, como Bill Haley ou Paul Anka -, muito antes da Jovem Guarda teve a idéia de criar um estilo musical novo com música jovem, como eles sentiam, e não como as gravadoras achavam que devia ser. Nesse sentido, Paulo César diz que Roberto criou a Jovem Guarda antes da invasão britânica.
Antes, contudo, Araújo ressalta a importância histórica de Carlos Imperial para que o cantor conseguisse uma gravadora, em uma época em que o disco começava a vingar e o trabalho de crooner em rádio estava desaparecendo. Depois de ouvir vários nãos, foi admitido graças à sua fama de imitador de João Gilberto. O produtor da Columbia, Roberto Côrte Real resolveu contratar o jovem artista porque queria compensar a perda do mesmo João para a Odeon. Outra: o renegado Louco Por Você , a rigor, foi uma mudança de planos de usá-lo como cantor de bossa, mas para se lançar como músico disputando espaço com Anísio Silva, Sérgio Murilo e Miltinho – daí o curioso ecletismo do álbum. “Hoje seria um álbum eclético, lounge de primeira ordem, mas na época revelou mais a indecisão do estilo do jovem cantor”, diz Araújo.
A implicância com o disco, segundo o autor de Em Detalhes , decorre que Roberto acha que desafinou em uma faixa do disco, “Não é Por Mim”. Para piorar, Côrte Real usou na capa uma foto de um disco do organista Ken Giffin. Mais: o texto de apresentação da contracapa dizia que Roberto era carioca e que “ Linda” era versão de Imperial para um tema de Bill Ceasar. A verdade é que nem Roberto Carlos era carioca, nem Bill Ceasar existia de verdade; para a Columbia, seria mais atraente colocá-lo como alguém da Capital e que o disco trouxesse pretensas versões brasileiras para rock americano, o que era a voga da época. Essa sucessão de equívocos provocou o seu repúdio ao disco.
Outro que merece destaque no livro é Evandro Ribeiro, primeiro produtor da segunda fase de Roberto. Evandro teria dado um valioso depoimento ao autor, que conta a vida da eminência perda dos discos do cantor justamente na melhor fase da sua carreira, como uma espécie de versão brasileira do Coronel Tom Parker. Roberto Carlos iria mudar para o rock; o problema é a CBS já tinha o seu artista principal – Sergio Murilo, e a política da gravadora era de evitar concorrência direta (de acordo com Araújo, eles recusaram Altemar Dutra porque tinha Carlos José, por exemplo). Porém, Murilo bateu de frente com Ribeiro e ousou questionar judicialmente os direitos de vendagem dos seus discos. Acabou restando na geladeira, e Roberto agora seria a bola da vez. Em vez de Elvis, Roberto Carlos cantaria estilo Neil Sedaka e foi com Susie que conseguiu o seu primeiro compacto de sucesso.
A reviravolta foi, porém, protagonizada por Roberto, segundo Araújo. Ele conseguiu impor tanto repertório quando músicos, contrariando toda a CBS, e fez algo impensado até então: mando uma orquestra da gravadora passear e colocou a turma que tocava rock na Piedade, e que atendia pelo nome de Renato e Seus Blue Caps. A música seria “Splish Splash”, e o resultado final foi tão surpreendente que Evandro resolveu contratar os rapazes na hora. E o resto é a história...proibida.
Ou não. O efeito colateral da proibição não podia ser mais bisonho: o livro interdito pode ser baixado facilmente pela Internet, através de links de páginas de upload de arquivos, em formato Pdf. Se o biografado – segundo Araújo - não leu e teria sido influenciado por comentários a respeito (“apenas soube, aqui e ali, de alguns fatos isolados e, em cima disso, disse que não gostou”, alega) do trabalho que custou dezesseis anos da vida do mesmo escritor do soberbo Eu Não Sou Cachorro Não , qualquer ser pensante com acesso à web pode ler a obra de graça e dar o veredito: se o livro mereceu ser lançado ao fogo.  |