OS IDOS DE MARÇO
Julio César, de Shakespeare encena a tragédia da vida real.
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )
inha peça preferida de William Shakespere não é a representação suprema do amor romântico no mito ocidental de Romeu e Julieta. Também não é a tragédia do lendário Rei Lear, que dividiu o seu reino entre duas de suas três filhas e sofreuo castigo do Destino. Tampouco é o conhecido drama de Hamlet, o príncipe dinamarquês que encontra o fantasma de seu pai, nem o ciúme de Otelo, muito menos a sombria reflexão sobre o mal e o poder. A minha preferida do bardo de Stratford-on-Avon é uma de suas primeiras tragédias, Júlio César , de 1599, e é composta de breves cinco atos.
Os Idos de Março. Idibus Martius . Em latim, Idus era o dia 15 de março, maio, julho e outubro (aqui no Brasil, Edmundo Moniz escrevu um excelente livro com esse título, porém tratando de outros “idos”, os de março de 1964). Pois foi justamente nesse dia e neste aziago mês que, lá no ano 44 antes de Cristo, Caio Júlio Cesar, 56 anos, foi abatido com 23 punhaladas pelos senadores romanos que, acusando-o de querer se transformar em rei, decidiram tramar sua morte. Na véspera do crime, no jantar, perguntaram à ele qual seria a melhor das mortes:
- A inesperada - retrucou.
E foi assim que ele pereceu. Não que deixasse de ser advertido. Arremidoro, professor de retórica, lhe havia dito: 'Cuidado com os Idos de Março. Tentou em vão falar com César (e lhe deixar um bilhete) que, cercado pela multidão, não lhe pôde dar ouvidos (curioso é que, sempre por trás de um assassinato, existe sempre um presságio). O sentimento de grandeza também o impede de ver o que está por acontecer.
Chegado o dia, ao aproximar-se do Senado, encontrou-o e perguntou-lhe: “Como é? Os Idos de Março já chegaram?”. Respondeu-lhe o homem: “Chegaram, mas não passaram”. Pouco depois, o cadáver de Cesar jazia à entrada do Senado, aos pés da estátua de Pompeu. De todas os golpes, a que mais lhe doeu foi a causada pelo seu pupilo, Brutus (Plutarco diz que ele não proferiu palavra alguma ao ser apunhalado por seu filho,mas corre a famosa lenda que ele falou “Até tu, meu filho?”).
Julio César perece ser a tragédia de um homem que aspira o poder em um estado que tem algo de muito mais podre do que o reino da Dinamarca. É a história de um homem que deve ser compulsoriamente injusto em um mundo injusto e, por conta disso, se entrega ao seu papel de tirano. A sua tirania lhe empurra para a desgraça e a desgraça toma o seu lugar em uma tirania muito mais tacanha e funesta, é a tragédia do Estado, da Política e do Povo. Shakespere, inspirado em Plutarco, soube perfeitamente aqui buscar na história de Roma uma perfeita metáfora da Inglaterra do seu tempo, com suas perfídias, traições e assassinatos (o ápice está em Tito Andrômaco , uma ciranda de carnificinas). Além do drama da política, está a relação ambígua entre Brutus e César, amalgamando os motivos da disputa pelo poder e o patricídio.
Em 60 a.C, César, patrício e líder da plebe se une a Crasso e Pompeu, implantando um triunvirato. Entre 58 e 51 a.C, ele conquistou a Gália (exceto a aldeia gaulesa, diria Goscinny e Uderzo) e se torna o maior general de seu tempo. Seis anos depois, se tornou ditador vitalício, reorganizou o senado e realizou reformas populares que, para variar, descontentaram a aristocracia romana. Ao perder seus privilégios, uma conspiração de Crasso, Casca e Brutus, que planejaram eliminá-lo sob acusação de substituir a decadente República pelo Império – que começou quando Otávio venceu Marco Antônio, em 31. a.C.
Em Shakespeare, César é o personagem trágico por excelência, caminha em direção ao seu destino. Cássio é um homem gentil que quer nobreza de espírito num mundo que lhe pede o contrário. Lúcio é o homem em seu estado de pureza. Brutus é um ignóbil, cuja incúria o destitui de razão, é desumanizado por seus erros. Mata por patriotismo, mas não soube medir exatamente o corolário do seu ato e acaba sendo vencido “por suas próprias mãos”.
César retorna à Roma com a certeza dos vitoriosos. Durante as Luperciais, por três vezes Marco Antônio lhe oferece a coroa de rei, e ele as recusa. Então Cássio e Casca aliciam o tímido Brutus na conspiração. O curioso é que Alpúrnia e Pórcia, personagens femininos, são as únicas que sentem a conspiração no ar. A esposa de César tenta convencê-lo a não ir ao Capitólio.
Estes são apenas os algozes de uma desgraça que não é deles, mas é de todos. A realidade é trágica, o líder ideal não existe, ele não se encontra no mundo real. E o bardo inglês apenas transpôs Plutarco para o palco. Ou seja, os elementos míticos saíram da vida real, a arte mimetizando a vida.
Aclamado, Brutus fala ao povo. O povo se assanha com o sangue derramado do general romano. Eis que Marco Antonio (em sua conhecida oração) vira a opinião pública contra os assassinos e diz:
- Mal, estás de pé, toma a direção que bem quiseres!
Outro admirador de Julius Caesar foi jornalista e político Carlos Lacerda. Muita gente não sabe, mas ele traduziu a peça e gravou em disco, para a mítica gravadora Elenco, de Aloysio de Oliveira, em 1966. Tive a oportunidade de ouvir esse disco, e só não recomendo porque ele está esgotado há quaranta anos, embora possa ser facilmente encontrado em formato Mp3 pelos sites de busca da Internet. O LP traz Lacerda, com sua voz grave característica e marcante de tribuno, declamando os principais trechos da peça: o discurso de Brutus, as falas de seus companheiros de conspiração e o famoso discurso de Marco Antonio.
Naquele mesmo ano, a tradução de Lacerda foi levada ao palco pela empresária Ruth Escobar e por Antunes Filho no Municipal do Rio de Janeiro, mas a montagem gerou animosidade por grande parte da classe artística (que não gostava de Lacerda e o ligava ao Golpe de 1964). Para piorar, a encenação foi um fracasso gigantesco. Uma série de problemas em série minou o espatáculo, que de tragédia virou pastelão.
Só para ilustrar: dois anos depois, no auge da “Redentora” (como dizia Sérgio Porto), o político udenista, com os direitos políticos cassados e jogado ao ostracismo pela revolução que ele outrora havia sido posto na cadeia. No xilindró, resolveu fazer greve de fome. Seu irmão, ao visitá-lo, o dissuadiu: “Carlos, não seja estúpido, você quer fazer Shakespeare na terra da Dercy Gonçalves?”.
Ora, e por que não? 
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