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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003



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PARABÓLICA #9

RESPEITÁVEL PÚBLICO: APRESENTAMOS O FIM DO CIRCO GARCIA
Shows de mágica, palhaços, malabaristas, pôneis, macacos divertidos, tigres ferozes e o sensacional globo da morte acabaram

por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

  Circo Garcia acabou. Não haverá o locutor com sotaque latino apresentando as atrações. Nem globo da morte, nem palhaço. Para grande parte das pessoas, trata-se de um processo normal, afinal, quem vai aos circos hoje em dia? Eu vou ao circo desde criança e, quando posso, continuo indo. E me divirto sempre. Tenho parentes circenses e quando estava cursando a oitava série eu decidi virar palhaço e ir morar no circo. Tinha até uma pretendente que eu paquerava dizendo que ia colocá-la em cima de um elefante, ela achava o máximo. Infelizmente, não virei cover do Arrelia e tornei-me um “artista frustrado”, como define um amigo meu a carreira jornalística.

No dia 10 de janeiro, o Estadão me deu uma punhalada no peito. Cheguei no trabalho e como de costume comecei a ler os jornais e lá estava na capa: fim do Circo Garcia. Fui diretamente para a página com a matéria completa e pela primeira vez quase chorei ao ler um jornal. Estava lá o palhaço Reco-reco maquiando-se pela última vez para uma apresentação no Garcia. O circo Garcia surgiu em 1928 e chegou a ser o quarto maior do mundo. Agora, resta apenas uma dívida de R$ 1 milhão.

Considero um absurdo o fim de um circo. É um retrato do descaso com a arte popular e mostra que o shopping center é mesmo o templo de lazer e compras da sociedade contemporânea. O que vem acontecendo com os circos não é muito diferente da miséria dos cinemas de rua na maioria das grandes cidades brasileiras. Imagens-símbolos dessa mudança de costume são o fim do Garcia e o estado calamitoso o Cine Belas Artes.

Os shoppings oferecem um suposto conforto, estacionamento, lojas, alimentação e lazer, tudo num único pacote. Pensando racionalmente, é mais vantajoso ir ao shooping do que ficar andando na rua procurando loja de roupa, cinema, restaurante, circo... Acho que é esse um dos fatores da proliferação desses centros de compras.

ORIGENS

Os registros mais antigos sobre atividades circenses são pinturas chinesas de quase 5 mil anos. São registros de contorcionistas e equilibristas. Na verdade essas acrobacias faziam parte do treinamento dos guerreiros. Mas o circo como o conhecemos foi invenção de um oficial inglês. Em 1770, Philip Astley inaugurou o Astley´s Amphitheatre, um teatro com picadeiro no centro e uma arquibancada. A primeira apresentação contou apenas com números de cavalos e Philip percebeu que para manter a platéia ele teria que inovar. Colocou um soldado que não sabia montar direito, caía do cavalo, passava por baixo do animal... surgia o palhaço circense. A palavra “circo” foi utilizada por Charle Hughes, que criou o Royal Circus em 1782. Anos depois, já existiam diversos circos fixos e ambulantes por toda a Europa.

No Brasil, o circo deu as caras no final do século XIX e logo popularizou-se. Estima-se que hoje existam cerca de 2000 companhias, 80 dessas são grandes ou médias. Os problemas enfrentados são a falta de público e a escassez de terrenos grandes que comportem o circo. Os dois fatores combinados são fatais.
Não consigo entender como uma arte tão original pode minguar desse jeito. Acho que as pessoas procuram algo como “Cirque du Soleil”. Há também as restrições quanto aos animais. Na última vez que fui no circo do meu tio, fiz questão de ver as condições de tratamento dos animais. Não sou especialista, mas achei que estava tudo certo.

Uma das minhas memórias mais remotas com o circo era o barulho do chicote.
Eu odiava os espetáculos com animais, pois o estalo do chicote me assustava e me fazia chorar. Anos depois, descobri que o domador não batia nos leões, o barulho era apenas um efeito sonoro. Se continuar assim, o circo vai virar apenas uma lembrança infantil. Até o próximo espetáculo.