| PARABÓLICA #9
RESPEITÁVEL PÚBLICO:
APRESENTAMOS O FIM DO CIRCO GARCIA
Shows de mágica, palhaços,
malabaristas, pôneis, macacos divertidos, tigres ferozes e
o sensacional globo da morte acabaram
por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

Circo Garcia acabou. Não haverá o locutor com sotaque
latino apresentando as atrações. Nem globo da morte,
nem palhaço. Para grande parte das pessoas, trata-se de um
processo normal, afinal, quem vai aos circos hoje em dia? Eu vou
ao circo desde criança e, quando posso, continuo indo. E
me divirto sempre. Tenho parentes circenses e quando estava cursando
a oitava série eu decidi virar palhaço e ir morar
no circo. Tinha até uma pretendente que eu paquerava dizendo
que ia colocá-la em cima de um elefante, ela achava o máximo.
Infelizmente, não virei cover do Arrelia e tornei-me um “artista
frustrado”, como define um amigo meu a carreira jornalística.
No dia 10 de janeiro, o Estadão me
deu uma punhalada no peito. Cheguei no trabalho e como de costume
comecei a ler os jornais e lá estava na capa: fim do Circo
Garcia. Fui diretamente para a página com a matéria
completa e pela primeira vez quase chorei ao ler um jornal. Estava
lá o palhaço Reco-reco maquiando-se pela última
vez para uma apresentação no Garcia. O circo Garcia
surgiu em 1928 e chegou a ser o quarto maior do mundo. Agora, resta
apenas uma dívida de R$ 1 milhão.
Considero um absurdo o fim de um circo. É
um retrato do descaso com a arte popular e mostra que o shopping
center é mesmo o templo de lazer e compras da sociedade contemporânea.
O que vem acontecendo com os circos não é muito diferente
da miséria dos cinemas de rua na maioria das grandes cidades
brasileiras. Imagens-símbolos dessa mudança de costume
são o fim do Garcia e o estado calamitoso o Cine Belas Artes.
Os shoppings oferecem um suposto conforto, estacionamento,
lojas, alimentação e lazer, tudo num único
pacote. Pensando racionalmente, é mais vantajoso ir ao shooping
do que ficar andando na rua procurando loja de roupa, cinema, restaurante,
circo... Acho que é esse um dos fatores da proliferação
desses centros de compras.
ORIGENS
Os registros mais antigos sobre atividades circenses
são pinturas chinesas de quase 5 mil anos. São registros
de contorcionistas e equilibristas. Na verdade essas acrobacias
faziam parte do treinamento dos guerreiros. Mas o circo como o conhecemos
foi invenção de um oficial inglês. Em 1770,
Philip Astley inaugurou o Astley´s Amphitheatre, um teatro
com picadeiro no centro e uma arquibancada. A primeira apresentação
contou apenas com números de cavalos e Philip percebeu que
para manter a platéia ele teria que inovar. Colocou um soldado
que não sabia montar direito, caía do cavalo, passava
por baixo do animal... surgia o palhaço circense. A palavra
“circo” foi utilizada por Charle Hughes, que criou o
Royal Circus em 1782. Anos depois, já existiam diversos circos
fixos e ambulantes por toda a Europa.
No Brasil, o circo deu as caras no final do século
XIX e logo popularizou-se. Estima-se que hoje existam cerca de 2000
companhias, 80 dessas são grandes ou médias. Os problemas
enfrentados são a falta de público e a escassez de
terrenos grandes que comportem o circo. Os dois fatores combinados
são fatais.
Não consigo entender como uma arte tão original pode
minguar desse jeito. Acho que as pessoas procuram algo como “Cirque
du Soleil”. Há também as restrições
quanto aos animais. Na última vez que fui no circo do meu
tio, fiz questão de ver as condições de tratamento
dos animais. Não sou especialista, mas achei que estava tudo
certo.
Uma das minhas memórias mais remotas com o
circo era o barulho do chicote.
Eu odiava os espetáculos com animais, pois o estalo do chicote
me assustava e me fazia chorar. Anos depois, descobri que o domador
não batia nos leões, o barulho era apenas um efeito
sonoro. Se continuar assim, o circo vai virar apenas uma lembrança
infantil. Até o próximo espetáculo.
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