| PARABÓLICA #18
FOLIAS JUNINAS
O assunto pode parecer tardio,
mas nunca é tarde pra falar da cultura brasileira. Eu adoro
festa junina!
por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)
osto muito de Festa Junina. Tanto quanto o carnaval.
Pensando bem, o Brasil é o país da festa junina e
não do carnaval. Veja bem: nem mesmo durante o carnaval existem
tantos focos de animação quanto no mês de junho.
Ruas, igrejas, escolas, trens, clubes, bares, restaurantes, empresas,
todos abrem espaço para a decoração de bandeirinhas
e para as comidas típicas. É difícil não
resistir a uma paçoca, doce de abóbora, quentão,
canjica, milho-verde, etc.
Há também a quadrilha. Também
chamada de “caipira” ou de “matuta”, é
a dança mais comum das festas juninas. Surgiu em Paris no
século XVIII, tendo como origem a contredanse française,
que por sua vez é uma adaptação da country
dance inglesa, segundo os estudos de Maria Amália Giffoni.
A quadrilha foi introduzida no Brasil durante a Regência
e fez bastante sucesso nos salões brasileiros do século
XIX, principalmente no Rio de Janeiro, sede da Corte. Depois desceu
as escadarias do palácio e caiu no gosto do povo, que modificou
suas evoluções básicas e introduziu outras,
alterando inclusive a música.
A sanfona, o triângulo e a zabumba são os instrumentos
musicais que em geral acompanham a quadrilha. Também são
comuns a viola e o violão.
Mas, e a música? Tenho reparado que cada vez mais a música
típica perde espaço para outros estilos durante as
comemorações juninas. Acredito que não haja
um brasileiro que não tenha escutado ou dançado uma
quadrilha ao som de “Festa na Roça”, de Mário
Zan. Ou que não tenha dançado ao som de um baião
de Luiz Gonzaga.
Mário Zan logo cedo, recebeu o apelido “moleque da
sanfona”. Italiano, radicado desde os quatro anos no Brasil,
começou a tocar profissionalmente com 19 anos nas rádios
Bandeirantes, Cultura, Record e Tupi. Na época, o compositor
Capitão Furtado procurava um sanfoneiro para excursionar
pelo interior paulista. Foi aí que sua carreira deslanchou.
Em 1946, foi contratado pela RCA Victor, onde gravou mais de 300
discos 78 rpm e 40 LPs.
Maior responsável pela divulgação da música
nordestina no resto do Brasil, Luiz Gonzaga nasceu na Fazenda Caiçara,
em Exu (PE). Filho de um lavrador e sanfoneiro, desde criança
ele se interessou pela sanfona de oito baixos do pai, a quem ajudava
tocando zabumba e cantando em festas religiosas e forrós.
Saiu de casa em 1930 para servir o exército como voluntário.
Viajou pelo Brasil como corneteiro, recebendo baixa em 1939. Resolveu
ficar no Rio de Janeiro, com uma sanfona recém-comprada.
Na mesma época, percebeu a carência que os migrantes
nordestinos tinham de ouvir sua própria música, e
passou a tocar xaxados, baiões, chamegos e cocos com grande
sucesso. Chegou a ir ao programa de calouros de Ary Barroso e tocou
seu chamego "Vira e Mexe", com grande aprovação
do público e do temível apresentador, que lhe deu
nota máxima.
Em 1943 apresentou-se vestido a caráter como nordestino,
com bastante êxito. Seu maior sucesso, "Asa Branca"
(com Humberto Teixeira), foi gravado em 1947 e regravado inúmeras
vezes por diversos artistas até hoje. Trabalhou na Rádio
Nacional e até cerca de 1954 teve seu auge de popularidade,
um sucesso avassalador que lançou a moda do baião
e do acordeom, além de obrigar todas as prensas de sua gravadora,
a RCA, a trabalhar para atender aos pedidos de seus discos. Depois
disso, com a ascensão da bossa nova, se afastou um pouco
dos palcos dos grandes centros e passou a se apresentar em cidades
do interior, onde sempre continuou extremamente popular. Nos anos
70 e 80 foi voltando à cena, em muito graças às
releituras de sua obra feitas por artistas como Geraldo Vandré,
Caetano Veloso, Gilberto Gil, seu filho Gonzaguinha e Milton Nascimento.
Morreu em 1989.
Atualmente, Dominguinhos, Mestre Ambrósio,Quinteto Violado,
entre outros, dão vida ao som que anima as festas juninas.
E, não consigo entender por que alguns organizadores cedem
espaço para outros ritmos nas suas festas. A alegação
mais comum é: “se tocarmos só forró,
os jovens não vêm!”. Até quando vamos
ter que nos render?
|