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RECENTEMENTE #74
SERIAM OS INCRÍVEIS FANTÁSTICOS?
O prometido filme do Quarteto Fantástico ganha seu mais cruel paradigma: Os Incríveis
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 om colants coloridos, espreitando as ruas de uma grande metrópole, eles aguardam uma chance para combater o crime. São membros de uma família empenhada em combater o mal em todas as suas formas. Possuem poderes fantásticos: desaparecem num piscar de olhos, criam campos de força, esticam-se até limites impossíveis, erguem toneladas com as mãos – mas, entre quatro paredes, seu cotidiano é mais do que trivial.
Até pouco tempo atrás, a descrição acima despertaria na mente de qualquer popmaníaco uma imagem muito clara – a do Quarteto Fantástico, a superequipe dos quadrinhos Marvel criada por Stan Lee em 1962. Desde 10 de dezembro, porém, ela ganhou uma ambigüidade literalmente incrível: passou a descrever, também, a família Parr, protagonista da animação de sucesso Os Incríveis . O filme, que surgiu como uma mera sátira ao universo dos super-heróis, tem um ano e todo o potencial do mundo para atingir a excelência máxima de qualquer paródia: suplantar, na cabeça dos fãs, a própria referência original que a incentivou. Transita com tanta excelência no gênero dos super-heróis que, quando o filme do Quarteto Fantástico estrear no final de 2005, será a novata família Parr que jogará uma sombra sobre os veteranos Richards, e não o oposto.
O fenômeno não será descabido e o feeling de plágio descarado que nos aguarda em dezembro não será suscitado exclusivamente pelos poderes similares de alguns membros de cada equipe (e cuja cinética Os Incríveis explora em um deslumbre que as estáticas páginas dos gibis jamais permitiram). A verdade é que, em cerca de duas horas de projeção, Os Incríveis cumpre com mais eficiência uma premissa que o Quarteto nunca conseguiu efetivar mesmo em quarenta anos de revistas: aparentar ser uma verdadeira família. Esta foi a sacada de Lee quando formulou os Fantásticos: os Vingadores eram um clube; os X-Men eram uma escola; os Fantástico... eram uma família.
O problema é que a concepção comum de família, especialmente aquela que permite os verdadeiros flagrantes de um cotidiano idiossincrático, passa por um pai, uma mãe e algumas crianças. Talvez uma avó, um cachorro ou outro agregado. O Quarteto possui uma única ligação sangüínea (entre Susan Storm, a Mulher-Invisível, e seu irmão Johnny, o Tocha Humana) e outra por casamento (de Susan com Reed Richards, o Sr. Fantástico). Completa o time Ben Grimm, alter-ego do popular Coisa, um amigo do trio. Convenhamos: dá pra considerar isso uma família? Dificilmente. Mais do que laços, família implica pessoas dispostas a cuidarem umas das outras e, principalmente, carentes deste cuidado. Não se aplica, portanto, a gente capaz de encarar sozinha toda uma invasão de alienígenas.
Cientes desta lacuna, os roteiristas que passaram pelo gibi apostaram em todo tipo de artifício para trazer os Fantásticos “mais para dentro de casa”. Primeiro, elevaram o namorico de Susan e Reed a um casamento. Depois, acrescentaram um elemento primordial: o filhote Franklin Richards, que, de quebra, aproximou Ben Grimm ao torná-lo não um colega qualquer, mas um padrinho de batismo. E, quando Franklin atingiu a idade de oito anos, da qual não aparenta crescer há mais de uma década, foi-lhe providenciado uma irmãzinha. Numa dessas reviravoltas que só existem nos gibis e nas novelas mexicanas, Susan perdeu o bebê, que ressurgiu mais tarde, já crescido – a família finalmente contava com uma adolescente. A dinâmica entre Valeria e Franklin em muito lembrava a de Violet e Dash de Os Incríveis . Recentemente, regrediram Valeria de volta ao estágio de bebê e os Fantásticos, relutantemente, ganharam mais um compadre: o vilão Dr. Destino.
Estamos, aí, condensando quarenta anos de cronologia da revista em quadrinhos. O filme não será tão ambicioso. Se o roteiro apostar na fórmula mais prosaica, aproveitará Reed e Susan como protagonistas de uma subtrama romântica, para aliviar a adrenalina da ação. Portanto, filhos para os pombinhos parece meio precipitado. No máximo, teremos uma proposta de casamento nos créditos finais, pavimentando o caminho para uma continuação que nunca virá. Para promover a “família” Richards, só restará o dia-a-dia sob um mesmo teto, que dificilmente provocará a mesma empatia que o retratado em Os Incríveis . Você conhece mais pais de família que trabalham num medíocre escritório burocrático ou que investigam formas alternativas de combustível numa dimensão chamada Zona Negativa? Mais casais que namoram diante da TV da sala ou sob um telescópio num laboratório espacial de última geração?
É possível destrinchar Os Incríveis em muitos elementos de sucesso – e há uma porção de boas críticas por aí, cada uma com seu enfoque. Eu gosto de acreditar que a sacada brilhante do filme de Brad Bird é mostrar primeiro a família em sua mediocridade compulsória, para depois torná-la heróica. Quando a Mulher-Elástico precisa deixar de lado seu instinto maternal para usar seus próprios filhos como elementos estratégicos no resgate do marido, entendemos perfeitamente o que está em jogo. Condoemos-nos não pela heroína, mas pela mãe. O filme do Quarteto Fantástico dificilmente terá este trunfo – e se, diante do público, os Richards não conseguirem parecer uma família, não soarão diferente de quatro aspirantes a X-Men que nunca deram certo. 
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