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RECENTEMENTE #75
NÃO NOS DÊEM OUVIDOS
Gays e a síndrome de perseguição: há assassinos nas telonas, mas nem por isso devemos nos fazer de vítima
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 inha penúltima coluna, a respeito da reação dos leitores da Playboy a uma matéria sobre estimulação anal, se tornou a campeã de respostas em toda a carreira da RecenteMente. O que me chamou a atenção entre as mensagens foi a de um carioca que dizia que o artigo marcava uma passagem temática na história da coluna. Ele afirmava que eu, costumeiramente, sempre enxergo a indústria cultural como origem de todos os males e preconceitos sofridos pelos homossexuais – ou mesmo pelos héteros. E que, ao criticar o machismo infantil dos leitores da Playboy , eu havia voltado meu olhar ao verdadeiro responsável por estes problemas: nós mesmos. A sociedade.
Ele pode ter razão. Talvez seja um efeito colateral da minha profissão: como trabalho com jornalismo cultural, é da mídia que mais facilmente extraio dilemas, argumentos e exemplos para alimentar minha coluna. Se fosse um jornalista econômico, faria uso da situação econômica do país; se fosse político, do posicionamento (a)político das minorias; etc.
Aproveito então a crítica deste leitor mais cético para alertar todos os outros que manifestaram apoio via email: não acreditem em mim. Ao menos, não sempre. Tanto quanto a própria causa gay, o jornalismo “engajado e entendido” às vezes se faz vítima de uma terrível síndrome de perseguição (na falta de termo melhor). A verdade é que, quando se trata da inclusão do homossexual na sociedade, o terreno é tão inexplorado que nossa bússola aponta qualquer norte. Seguimos em todas as direções e não nos preocupamos se nos perdemos. Ficamos tanto tempo parados, com medo de tudo ao nosso redor, que agora estamos obcecados em caminhar. Não importa para onde e não importa se, eventualmente, dermos um passo maior que a perna.
Só o tempo colocará nossa (minha) ingenuidade inicial em perspectiva. Deixe-me contar duas historinhas – que, pra variar, vêm da indústria cultural.
Os anos 80 marcaram a consolidação dos movimentos homossexuais nos EUA como forças políticas e sociais. Quando os 90 começaram, a ordem do dia era ganhar exposição positiva para a causa e, principalmente, condenar qualquer imagem negativa associada aos gays. Para matar os dois coelhos com uma cajadada só, não havia outra opção senão arrombar os portões que nos alijavam da indústria cultural. Eram tempos muito diferentes, aqueles. Gays não eram papas do estilo e da boa vida, como são embalados e vendidos hoje em Will & Grace e Queer Eye for the Straight Guy . Não, não. Naquela época, os gays só pareciam surgir na TV e no cinema como... assassinos psicopatas?!?!?
Pois era o que alegavam grupos que faziam piquete em frente ao estúdio da MGM em 1990 e que repetiram a dose em 1991, diante da TriStar Pictures. Carregavam cartazes e gritavam ordens de protesto. Tudo porque ali estavam sendo rodados dois thrillers em que os vilões, assassinos frios e calculistas, eram apresentados com tendências gays – o travesti de O Silêncio dos Inocentes e a femme fatale loura de Instinto Selvagem .
A mídia regular deu espaço às manifestações exclusivamente por causa de seu apelo sensacionalista. Seu viés político foi logo negligenciado – simplesmente porque não havia nenhum. Mas o segmento da imprensa voltado à comunidade gay tratou de amplificá-lo muito além do que seria sensato. Representantes dos estúdios tiveram de vir a público argumentar que os filmes não pregavam qualquer preconceito. Até mesmo o diretor Jonathan Demme, que viria a ser premiado com um Oscar por O Silêncio dos Inocentes , validou a polêmica ao reiterar que não era homofóbico. Não acreditaram.
Um salto no tempo. Treze anos depois, uma produtora independente ficcionaliza a biografia da primeira serial killer feminina da história judicial dos EUA. Que, por um acaso, é lésbica. As organizações homossexuais não dão um pio e Monster rende a Charlize Theron seu primeiro Oscar. Mudou o filme ou mudamos nós? Gosto de acreditar que atingimos um grau de maturidade que nos permite entender que, assim como há héteros “vilões”, também há gays “vilões”, sem que isso implique qualquer associação pejorativa. Ora, é tão óbvio! Mas não parecia tão óbvio no início dos 90...
Portanto, façam como meu leitor carioca: quando os gays saírem batendo o pé e bufando por aí, reserve para si uma parcela de bom senso (tanto quanto você o teria diante de qualquer discurso político, de uma propaganda sobre como perder peso ou daquela desculpa esfarrapada do seu namorado). Nós, gays, não estamos sempre com a razão – e nos damos conta disso toda vez que o TNT reprisa o aclamadíssimo drama homossexual Filadélfia . Foi, afinal, o filme seguinte de Jonathan Demme.
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