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19 de fevereiro a 12 de março de 2005
Equipe Edições Anteriores

RECENTEMENTE #76

CLAUSTRO
Confessionário da Igreja. Um jogo de poder entre o padre e a beata
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

o fim da missa, num fulgor de culpa velada, ela dirigiu-se o mais rápido que pode para o confessionário. Cada nervo de seu corpo ardia, com o controle esmorecendo num calor quase lascivo sobre a pele e escorrendo como que por entre os dedos. Com mais alguns passos, entrou no pequeno cubículo barroco de madeira, jogou-se de joelhos sobre a almofada que a esperava e fechou a porta. Sentindo-se finalmente protegida, concedeu-se um suspiro de alívio. Na respiração que seguiu-se, o cheiro do carvalho adocicado penetrou em sua carne e, com ele, as paredes pareceram aproximar-se.

– Cá estou – anunciou alguém irreconhecível do outro lado da divisória da câmara.

A silhueta hithcockiana do padre avolumou-se de repente na malha que ocupava a pequena janela. Os contornos bonachões contrastavam com a voz, impessoal e gélida. Era desprovida de qualquer rudeza, decerto, mas bem como de qualquer outro sentimento. Pareceu à moça, enfim, mero protocolo eclesiástico.

– Perdoe-me, padre, faz sete dias que não me confesso.

– Em seis dias o Senhor fez o mundo, filha. Continue.

Ela fez o sinal da cruz com pouca destreza, demoradamente, como se esperasse uma lufada de inspiração divina, colorida, cristalina, como os vitrais da nave.

– Eu pequei, padre.

O capelão exasperou-se num meneio de cabeça calmo, rígido, como se tal testemunho não lhe fosse de uma previsibilidade óbvia. Silenciou-se por uns instantes, teatralmente, até que se ouvisse um desconforto do outro lado. Então, prosseguiu:

– Arrependei, e eu vos absolverei. Qual foi o pecado?

– Eu... Padre, eu... Meu pecado...

Ela saracoteava em meio aos enunciados, fazendo-a escolher a todos e a nenhum. Aos poucos, como num desvio de tensões, a impotência oral lhe subiu aos músculos da pálpebra. O padre vestiu-se furtivamente de compadecimento. Ela não podia vê-lo. Quem espera que o dente-de-leite caia sozinho não vai ao dentista.

– Foi um dos pecados capitais?

– Sim – ela limitou-se a dizer, com um esgar de arrependimento. Ergueu os olhos e viu a silhueta expandir-se como um tumor pela malha: o padre se aproximava.

– Luxúria? – sibilou, insidioso.

A resposta veio numa torrente de choro que não mais podia ser represado, e que escorreu ruidosamente pelas faces perfumadas da pobre moça. Os olhos das tábuas de carvalho do confessionário vigiavam tepidamente o veludo roto da almofada molhar-se.

Havia lágrimas.

– O pior dos pecados, minha filha – inquiriu. – Os atos de impureza carnal são o chamado do diabo. Ele espreita cada cristão apenas à espera de um deslize.

Ela hesitou. A oratória imponente mas sem escândalos do padre parecia arrancar-lhe pedaços que eram só dela. Gradualmente, porém, ela pôde se concentrar e o chorou diminuiu até tornar-se um agudo ganido que a acompanhou até o fim da confissão. Seus olhos grudaram-se no chão e jamais ousaram encarar novamente a figura iluminada e pura do clérigo. Agora se arrependia mais do que se envergonhava. O padre estava certo em penitenciá-la.

– Eu peço perdão, padre – disse, entre fungadas. – O diabo não habita este corpo. Quero afastá-lo. Não quero mais esses pensamentos...

– Pensamentos de luxúria, sacrílega? – ele rebateu.

– Sim, sim. Às vezes... eu vejo. Eu vejo eles, padre. Homens, entende? Homens... despidos. Eu lhes imagino o corpo... seu suor, seu sexo...

– Pois é o diabo que lhe sopra estas heresias no ouvido, filha! Há de se penitenciar e excomungá-lo! – sussurrou novamente. Um auto-controle fagulhava nas palavras medidas e vociferadas com calma pelo padre. Esboçou um sorriso no canto do lábio, e todas as rugas do rosto lhe honravam a herança secreta e única. Ela não podia vê-lo.

– Deus tenha misericórdia, padre! – a constante referência ao demônio lhe fraquejava os ânimos e assombrava a mente. Mas nisso reside a mística da fé: no que sua mente perturbava-se, mais forte convencia-se de que precisava de um castigo. – O que devo fazer?

– Volte para casa e jejue até sábado. Até lá, ajoelhe-se diariamente no milho, e dele não ouse se levantar até ter lido todo o capítulo 8 do Sagrado Evangelho de São Mateus. Em seguida, reze trinta Pai Nossos e vinte Ave Marias.

– Sim senhor, padre! – ela acatava às ordens como se lidando com o general de Jesus na mais beata das Cruzadas. – Como o senhor mandar! Minha salvação é o que me vale!

– E não retorne a blasfemar meus ouvidos com suas indecências.

– Sim, padre – e retirou-se.

– Vá com Deus, filha.

A portinhola rangeu-se ao abrir, uma última acusação no tribunal. A luz externa ativou todos os sentidos da jovem moça. Ela tinha sensação de que seu espírito havia sido anestesiado. Espreguiçou-se discretamente em meio aos oratórios e olhou com lânguidez para as chamas das velas tremulado.

Do outro lado do confessionário, o padre retirava-se, ajeitando e alisando sua batina. Em seu rosto via-se um pesar minuciosamente interpretado, mas desmentido por um triunfo quase venal no olhar. Caminhou de volta ao altar com a respiração ainda ofegante de sua nova ofensiva. Ela não podia vê-lo.

Ela assistiu àquela figura caminhar lentamente de volta ao fundo da igreja e relembrou aos poucos de suas palavras duras, necessárias. Ele era tão benevolente, mas ao mesmo tempo, tão... dominador. Era um indivíduo honrado, entretanto... parecia... um predador faminto. Esta imagem lhe causou um frio na espinha, um impulso quase instintivo. Mas não de medo.

E, ajoelhada, antes mesmo de completar o sinal da cruz para poder ir embora, começou a imaginá-lo pelado.