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RECENTEMENTE #77
MORTÍFERA ILHA
Só cenas em locação, elenco gigantesco, muita perguntas e poucas respostas: como o seriado Lost está reescrevendo o modo de se fazer TV nos EUA
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
streou no começo do mês, com inexplicável atraso, a nova série dramática mais aclamada por crítica e público nos EUA. O canal AXN reservou as noites de segunda para Lost – uma saga sui generis que reedita a mítica da ilha apartada da sociedade e que se torna, por si só, um microcosmo dela. Cercados de água por todos os lados estão quase 50 sobreviventes de um desastre que abateu uma aeronave em rota pelo Pacífico. Não se trata de um Náufrago coletivo: o que tem distinguido Lost são as excentricidades que acometem o seriado, tanto dentro quanto fora da trama.
Na verdade, a trama gradualmente evoca outro filme (ou clássico da ficção científica, como queira): assolados também por furtivos predadores e mistérios inexplicáveis, os ex-passageiros da linha aérea Oceanic parecem presos numa nova Ilha do Dr. Moreau , o paraíso tropical infestado por feras mutantes criadas pelo cientista do título, que, eventualmente, rebelam-se contra o mestre (é a gênese comum, também, de Jurassic Park , e, entre fãs e personages de Lost , há quem acredite que as criaturas que os ameaçam sorrateiramente na selva talvez sejam dinossauros).
O Dr. Moreau de Lost , contudo, não entende nada de hibridar espécies diferentes de animais – sua verdadeira especialidade é desafiar as convenções da TV fundindo diferentes gêneros. O produtor, diretor e roteirista J.J. Abrams é o atual golden boy da indústria televisiva. Em sua curta e cada vez mais embalada carreira, acertou três vezes na mosca, numa sucessão que atesta o escopo crescente de suas ambições e talentos: ao ambiente universitário de Felicity , Abrams acrescentou um quê de espionagem e gerou Alias – ambas imediatamente adoradas pelo público e prontamente capazes de render às protagonistas Globos de Ouro de melhor atriz dramática. Em Lost , Abrams mistura drama com mistérios quase sobrenaturais e, ao que parece, a receita está dando certo.
Ao lado do hit cômico Desperate Housewives , exibido no Brasil pelo Sony, Lost ajudou o canal ABC, tradicional medalhista de bronze na audiência americana, a se reerguer. Interessante notar como este ressurgimento da emissora, subsidiária da Disney, seguiu na contracorrente de uma programação cada vez mais segmentada: analistas da indústria atribuem tanto o sucesso de Lost quanto o de Housewives à sua capacidade de cruzar por diferentes nichos de espectadores. A série cômica atrai igualmente a dona de casa dos subúrbios e a solteira órfã de Sex and the City , mas também os homens nas faixas de 24 a 35 anos, os homossexuais e até mesmo uma parcela dos adolescentes. Em Lost , as mulheres se interessam pelos laços afetivos dos personagens e pela beleza carismática do elenco, enquanto os adolescentes e os homens maduros encontram nos mistérios cabeludos da série o sucessor natural de Arquivo X . A internet está apinhada de teorias malucas sobre a ilha e seus habitantes (o que, evidentemente, também é uma excelente divulgação boca-a-boca, outro fator que propeliu a série).
Além das incongruências naturais da própria ilha – onde os sobreviventes encontram um urso polar e a retransmissão de uma mesma mensagem de socorro há 16 anos –, Lost conta com um vastíssimo elenco de personagens, cada um com seus próprios segredos. Há a boazinha com um passado criminal, o alívio cômico com problemas de droga e um calado senhor que diz ter sofrido um milagre divino. Tudo tende a piorar nos próximos episódios, quando o grupo descobrir que se infiltrou, entre eles, alguém que não estava no vôo malfadado. Enquanto isso, Abrams impregna a trama de mais elementos surreais, ao ponto de deixar qualquer fã realmente “perdido” (a tradução literal do título). E, se há alguém no meio capaz de conceber e sustentar um bom mistério, este alguém é mesmo Abrams – haja visto o surpreendente controle estrutural que ele mantém sobre Alias , com fios soltos que ele impede habilmente de se embolarem há mais de três temporadas.
O que deixa a crítica igualmente perplexa, contudo, não são os perigos dentro de Lost , mas os de fora. A ambiciosa série pode gabar-se de algo raro: está reescrevendo como se faz TV nos EUA, uma fórmula que sofreu poucas mudanças ao longo dos anos. Assim como a revolucionária novela brasileira Pantanal , Lost é rodada quase inteiramente em locações abertas, o que multiplica insanamente seus custos. Além disso, seu elenco não conta com a média de 10 personagens como outros dramas, mas sim 48, e Abrams garante que todos terão alguma relevância. Embora Matthew Fox, de Party of Five , e a novata Evangeline Lilly sejam os principais, há tantos outros atores que a série não consegue ter uma abertura. Nomes como os de Dominic Monagham (um dos hobbits de O Senhor dos Anéis ), Ian Sommerhalder (de Regras da Atração ) e Terry O'Quinn (veterano de Alias ) surgem em ordem alfabética durante as primeiras cenas.
Apresentando tanta gente e em uma situação tão limítrofe, Lost também inverte a estrutura tradicional do enredo. Seus episódios nem sempre oferecem arcos narrativos fechados – a velha parábola do conflito, clímax e resolução. Isto porque a série, em si, já se propõe como um arco fechado. Lost não poderá durar indefinidamente sem correr o risco de se metamorfosear em um Família Robinson e, portanto, se descaracterizar. Para os personagens, há apenas a esperança de um resgate. Ou é isso, ou é nada – um dilema narrativo que o diretor John Sayles abordou magnificamente em seu filme Limbo . Se, em 24 Horas , cada episódio é uma hora da vida do agente Bauer, em Lost , premidos por este escopo temporal curto, cada capítulo é não mais que um dia na vida do médico Jack e seus companheiros de desastre, rumo a uma resolução cada vez mais próxima mas, paradoxalmente, cada vez menos clara. Um motivo a mais, sobretudo, para que os fãs da boa TV comecem a acompanhar a série imediatamente. |