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RECENTEMENTE #78
ESFORÇO DE ARTE
Se você acha que seu filho de cinco anos também é capaz de fazer arte moderna, quem está errado? Você, seu filho ou a arte?
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
Até meu filho de cinco anos faz igual!”. Todo mundo já ouviu antes. É a crítica pré-fabricada mais comum em exposições de arte. É, também, o escudo do humor diante do desconhecido, do desafio às seguranças. Mas é, sobretudo, um indício que escapa por uma brecha, como um lapso, de uma noção muito distinta, enraizada e pouco discutida do que é arte.
Não digo discutida nos rincões intelectuais do meio. Digo nos setores da sociedade a quem é preciso levar a arte. Mais: digo no âmbito pessoal de cada um. Não há resposta evidente para o que é arte – não encontrar uma definição não é o problema. O problema é não se fazer a pergunta. Quando alguém compara Miró com um garoto de cinco anos, expele e propaga um preconceito que permanece secreto e insidioso por várias gerações, em todo lugar: trazê-lo à luz é matá-lo. A lógica é o suficiente.
Para estas pessoas, a palavra “obra” é tão semanticamente adequada na expressão “obra de arte” quanto em “mestre de obra”. Sem que saibam, para elas, a arte nada mais é, em essência, que um esforço. O único valor intrínseco à obra (um tanto capitalista, evidente) é a dificuldade de se realizá-la. A beleza de um carro é questionável – você pode preferir o Porsche, eu posso preferir a Ferrari. Mas concordamos que um carro é mais difícil de se fabricar, portanto mais valioso, que um alicate. Logo, que o silogismo caiba à arte (ou que a arte caiba ao silogismo). Seu filho de cinco anos voltou da escola numa bela tarde de verão e exibiu o Miró que desenhou com guache. Não pode ser arte.
Para os descrentes no talento de Miró e de toda a população na faixa dos cinco anos, não é a arte que faz o artista, é o artista que faz a arte. É uma divisória aparentemente intrasponível que remonta ao auge do Romantismo, o movimento que consagrou a figura do artista terrivelmente perturbado, sofrido, incompreendido. Artistas nasciam artistas – quem os fazia era o cruel destino de suas sensibilidades. Eles do lado de lá, todos nós do lado de cá. Não se fazia a transição como se escolhesse uma carreira (e, vejam só, até hoje há quem não olhe a poesia ou a escultura como carreira; continuamos atrasados 400 anos em mais de uma maneira).
A concepção de artista pode vir do Romantismo; a de obra de arte, contudo, advém do Renascimento. As pessoas ainda esperam que a arte, em particular a pintura, mas todas as outras, ainda remetam à realidade. Capturem um fragmento dela. Quanto mais próxima à realidade, mais difícil de ser realizada, portanto melhor, mais valiosa. Voltando aos silogismos, há algumas premissas embutidas aí, que o medo de todo mundo varre para debaixo do tapete: quanto mais “real”, menos “perturbadora” a obra de arte é e, portanto, “melhor”. Compare as opiniões dos cinéfilos que saem de uma sessão de Spielberg e outra de David Lynch. Diante dessa refuta inconsciente ao estranho, que permite que gente compare Miró e infantes também comendo pipoca, não é de se perguntar se nossa noção de arte é tão frágil assim; mas sim se nossa noção de realidade é tão frágil assim.
A predileção pela arte como esforço e como realidade está, repito, em todo lugar. Livros infantis com menos de duas dúzias de páginas nunca deixarão de ser considerados subliteratura (HQs tampouco). Rodin e Michelangelo permanecerão incólumes como os únicos escultores reconhecidos em escala global. Filmes vão continuar sendo julgados pela acurácia de seus efeitos especiais; e atores, pelo mimetismo de suas atuações. (Depois que Jamie Fox ganhou o Oscar por Ray , nosso querido Sílvio Santos pode levar seu clone do Troféu Imprensa quando interpretar a si mesmo em sua própria cinebiografia. Eu vislumbro um dia todos saindo do cinema exclamando: “puxa, ele estava igualzinho ao Sílvio!” e a própria realidade deixando de existir, seu continuum rasgado pelo peso insustentável desse paradoxo).
Na verdade, está todo mundo muito contente com o que se entende por arte hoje. Ninguém quer derrubar a institucionalização da arte, um desenho pré-escolar por vez. A árvore roxa de pauzinhos do meu filho, uma vez elevada ao status de arte, magicamente democratiza a arte o que, em termos mercantis, significa esvaziá-la de valor. Todos temos, teríamos, poderíamos ter, nossa pinacoteca em casa. Você descobriria que, ao contrário do carro que você construiu arduamente durante seu turno na fábrica, algo feito despretensiosamente e em poucos minutos poderia ser vendido por milhares de reais e que esse valor não é absoluto. Pior: você descobriria que aquele moleque de cinco anos dentro de você não está tão dormente que não possa acordar com o cheiro de um conjunto de tintas guache novo.
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