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30 de maio a 11 junho de 2005
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RECENTEMENTE #79

TELONA E TELINHA

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

odo ano, o Oscar parece sempre igual: um anfitrião engraçadinho, um cenário esbanjador, um punhado de paparazzi, um tapete vermelho e muitas estrelas em roupas de gala. Cinco números musicais, alguns balés e vários premiados anônimos depois, o show bate nas quatro horas de duração, nosso filme predileto é sumariamente ignorado nas principais categorias, a gente vai dormir pensando que tem que acordar cedo para trabalhar no dia seguinte e jurando nunca mais perder tempo com aquela baboseira. Mas se, no ano seguinte, você vacila e repete os mesmos erros, não se preocupe. O jornalista americano Steve Pond provou que promessas desfeitas e tropeços repetidos como um relógio a cada doze meses são mais comuns dentro da Academia de Artes e Ciências de Hollywood do que aqui, do lado de fora.

Pond é o autor de The Big Show – High Times and Dirty Dealings Backstage at the Academy Awards , um calhamaço de quinhentas páginas publicado pela editora Faber and Faber que revela todos os podres dos dez últimos anos da premiação mais prestigiosa do showbusiness mundial. O Oscar não é exatamente um tema raro nas livrarias americanas, mas Pond, um veterano articulista da revista Premiere , oferece um enfoque absolutamente original e único: como parte de um processo de revitalização do show, os chefões da Academia o convidaram para ser o único jornalista nos bastidores da cerimônia. Pond aproveitou a oportunidade para assinar matérias que, mais do que disseminar fofocas cabeludas, traçam um paralelo entre o frenesi dos preparativos de cada festa e tudo de mais importante que aconteceu na indústria do cinema naquele ano.

Quem dá o tom ao livro é Mike Nichols, diretor de filmes como A Primeira Noite de um Homem e Perto Demais que, em 1970, se demitiu do cargo de produtor da 41ª entrega do prêmio. Sua justificativa era de que “toda hora que estávamos conseguindo embalar o show, aparecia algum idiota para entregar um Oscar”. O que está em análise, portanto, não é o Oscar como troféu e sua repercussão política e financeira em Hollywood, mas o Oscar como evento – um mastodonte cuja transmissão anual pela TV só perde em audiência para a final do campeonato de futebol americano, mas que, ao mesmo tempo, tem visto seus índices baixarem gradualmente, soterrados pela mesmice de cada cerimônia.

Assim, The Big Show é não mais que uma deliciosa crônica acerca de dez tentativas de reformular a festa do Oscar, todas elas falhando miseravelmente, não importa quão malucas ou revolucionárias sejam suas armas. O ponto de partida é o show de 1990, cuja produção caiu nas mãos de Alan Carr e cujo resultado é considerado um dos mais desastrosos de todos os tempos. No afã de inovar, Carr foi capaz de incluir uma apresentação do ator-mirim Corey Feldman imitando Michael Jackson, um dueto entre Pat Morita (de Karatê Kid ) e Telly Savallas (o famoso Kojak) e uma aparição não-autorizada pela Disney da personagem Branca de Neve. Desde então, a Academia ofereceu novas regras para sua cerimônia-máxima e convocou o produtor Gil Cates para formatar o que mais ou menos conhecemos hoje como o Oscar habitual.

A “década de Cates” viu surgir um novo estilo de se fazer o Oscar, mas também um novo estilo de se ganhar um Oscar – o livro descreve em detalhes a ascensão da Miramax e seu feroz estilo de campanha para promover filmes como Traídos pelo Desejo , Gênio Indomável e Shakespeare Apaixonado . Quando a guerra não estava entrincheirada em Hollywood, estava no Iraque, afetando a premiação de 2003, ou nos ataques terroristas de 11 de setembro, influenciando a festa de 2002. Em 2001, houve o roubo das estatuetas do Oscar; em 1999, a polêmica homenagem a Elia Kazan; em 1998, o triunfo de Titanic ; em 1996, o protesto de grupos de minorias raciais na porta do Dorothy Chandler Pavillion contra o preconceito da Academia... Ou seja, não faltam assuntos para que Steve Pond vá desnudando, aos poucos, todas as ramificações do cinema atual na política, na economia e na sociedade dos EUA.

A influência capilar do cinema, contudo, não é suficiente para libertar o Oscar de seu maior capataz: a televisão. Os direitos de transmissão da premiação pela TV ainda constituem a principal fonte de renda da Academia e, assim, forçam uma amarga relação entre essas duas mídias que nunca se deram muito bem. Pode parecer ingênuo acreditar que, para o Oscar “enquanto troféu”, o que importa é a arte e o refinamento da apreciação do cinema. Mas não há dúvida, contudo, quando se constata que para o Oscar “enquanto festa”, o que vale é o dinheiro e o nivelamento do gosto ao patamar da classe média americana. A “anônima” Frances McDormand pode ter merecido seu prêmio como melhor atriz por Fargo em 1996, mas, para os produtores show, o que interessa mesmo é Julia Roberts vencendo por Erin Brockovich . É por este viés que os produtores amaldiçoam canções morosas como “Scarlet Tide”, de Cold Mountain , cujas apresentações obrigatórias durante a cerimônia costumam derrubar os índices de audiência. E, claro, no sentido inverso, não há nada melhor do que ter Aerosmith apresentando “I Don't Wanna Miss a Thing” no ano de Armageddon : o Oscar tem lutado desesperadamente para atrair atenção dos homens e dos jovens abaixo dos 25 anos, os dois segmentos demográficos da audiência que mais o têm rejeitado a cada ano.

A dicotomia prossegue na evolução cronológica de The Big Show . Se você é daqueles que curte Cinema grafado com C maiúsculo (e em letras de néon nas marquises das salas), vai preferir os primeiros capítulos, em que Pond sente-se na obrigação de explicar o quase inexplicável processo de votação da Academia em cada uma das categorias, revelando como a instituição renova suas regras a cada ano para driblar injustiças como a eterna vitória da Disney nos prêmios de melhor trilha sonora, ou a vergonhosa e histórica exclusão de Hoop Dreams dos documentários indicados em 1995. Agora, se o seu papo é o glamour que transborda dos astros e estrelas que comparecem à cerimônia, especialmente quando apertadinhos na telinha da TV, The Big Show pega embalo já no final, quando apela para a memória do leitor e revela todas as fofocas nos Oscars mais recentes.

Como The Big Show só foi lançado nos EUA e ainda não foi (nem deve ser) adquirido por nenhuma editora nacional para tradução em português, vou bancar o colunista solidário e reservar a próxima RecenteMente só para compartilhar segredos dos bastidores testemunhados por Pond. No entanto, enfatizo a sugestão: se você curte o assunto, tem uma graninha extra e adora visitar a Amzon.com, pode comprar The Big Show sem medo de errar. É bem mais divertido que a maioria dos Oscars!