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RECENTEMENTE #80
GLAMOUR QUE NADA!
Tudo que você queria saber sobre as fofocas do Oscar mas dormiu durante a cerimônia antes de perguntar
por Marcel Nadale (mnadale@rabisco.com.br)
onforme prometi na quinzena anterior, esta edição da RecenteMente será dedicada às mais sugestivas, difamatórias, baixas e saborosas fofocas dos bastidores do Oscar – todas cortesia de The Big Show , o fantástico livro-reportagem de Steve Pond, articulista da revista Premiere , assunto do meu último texto. Divirtam-se.
Em 2004, Steven Spielberg foi escalado para entregar o troféu de melhor filme. No ensaio geral, o falso envelope que o cineasta deveria ler concedia a vitória a O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei , o favorito absoluto desde que as indicações haviam sido anunciadas. Spielberg não se fez de rogado, suspirou fundo e quebrou o protocolo: ao menos naquele ensaio, fez questão de que o vencedor fosse Gata em Teto de Zinco Quente , o clássico com Elizabeth Taylor.
Steve Pond investigou, investigou, mas não descobriu como foi que o decadente Steven Seagal conseguiu ser convocado repetidos anos para apresentar diversas categorias menores durante a cerimônia.
Para o 71º Oscar, a Academia enviou a seus membros cédulas nas quais eles poderiam escolher as três cenas que consideravam mais importantes para a história do cinema. As 250 mais votadas seriam fundidas num clipe exibido durante o show. Cerca de 1700 profissionais responderam ao pleito. O ator Val Kilmer teve a moral de votar em três filmes seus – incluindo Batman Eternamente .
Para atrair o público jovem, em 2004 a Academia testou “trailers” para promover a festa com três trilhas diferentes: “Hey Ya!”, de Outkast, “Get the Party Started”, da Pink, e “Hollywood”, da Madonna. Outkast foi o escolhido. O produtor do show disse que se a canção de Madonna fosse selecionada, ele se demitiria.
Madonna, aliás, só tem uma rival no posto de “megera-mor do Oscar”: a diva Barbra Streisand. Os organizadores quiseram morrer quando, em 1997, as duas foram indicadas simultaneamente ao prêmio de melhor canção: uma por Evita e outra por O Espelho Tem Duas Faces . Para completar o pesadelo, a também atriz e cantora Courtney Love, do aclamado O Povo Contra Larry Flynt , deu um auê nos ensaios porque exigia declamar um poema erótico antes de revelar os vencedores da categoria de melhor maquiagem.
Billy Crystal pode ser o anfitrião favorito da Academia e da maioria do público, mas o baixo escalão da produção do Oscar tem outro querido: Steve Martin. O comediante é considerado um verdadeiro cavalheiro nos extenuantes ensaios antes da apresentação final. Recusa motorista e dirige seu próprio carro; sabe sempre quando pode descansar e quando deve retornar ao palco, pois memoriza o roteiro; e abre votação entre os funcionários para escolher quais piadas deve utilizar em cena.
Crystal também é muito admirado, dentro e fora do Oscar. Só seu carisma foi capaz de garantir que figuras polêmicas da história da cerimônia tirassem um sarro de si mesmas no tradicional clipe em que o comediante é inserido digitalmente nas cenas dos principais concorrentes da noite. No ano de O Paciente Inglês , Crystal descobria que o piloto do avião que sofria um acidente no filme era ninguém menos que David Letterman, o anfitrião fracassado do ano anterior. E, no ano de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei , o documentarista Michael Moore aparecia em uma cena de batalha satirizando seu discurso anti-Bush da festa de 2003: “Esta é uma guerra fictícia! Que vergonha, hobbits! Que vergonha, todos vocês!”. Moore, então, morria esmagado por um mítico elefante, para alegria dos republicanos na platéia.
Por falar em republicanos: nem sempre as aparências enganam. Em mais de uma ocasião, The Big Show mostra que Arnold Schwarzenegger é mesmo praticamente iletrado em inglês.
Depois de ganhar o Oscar de filme estrangeiro por Tudo Sobre Minha Mãe , Pedro Almodóvar chamou num canto a produtora da festa, Lili Zanuck, e soltou os cachorros por ter tido seu discurso interrompido pela orquestra. Anos depois, o espanhol se retratou: venceu o prêmio de melhor roteiro original por Fale com Ela e fez um discurso discreto, dentro dos 45 segundos estipulados pelos organizadores.
Ainda sobre discursos: todo produtor os culpa por alongar a festa. Houve um ano em que Gil Cates prometeu uma TV de tela plana a quem agradecesse por menos tempo. Quem levou o mimo foi o holandês Michael Dudok de Wit, vencedor da categoria de curta-metragem de animação. Seu “obrigado” a três colegas e à Academia durou 18 segundos.
Entre os atores, um dos discursos curtos mais notórios foi o de Joe Pesci, eleito melhor coadjuvante por Os Bons Companheiros . Pesci só disse “obrigado” e se retirou não porque era “curto e grosso”, mas porque estava chocado com a vitória. Quando saiu de cena, desabou na coxia, repetindo “não acredito”, cheio de lágrimas com a respiração entrecortada. Houve quem achasse que ele estava enfartando.
Segundo Kevin Spacey, é por isso que a Academia mantém a tradição do vencedor do ano anterior entregar o troféu para o novo eleito: só um oscarizado pode entender o que se passa na cabeça de outro oscarizado naquele instante. Foi Spacey quem segurou Julia Roberts pelo braço após lhe dar a estatueta de melhor atriz por Erin Brockovich . Nos bastidores, a bocuda ficou tão transtornada que Spacey só imaginou um único remédio: usou sua notoriedade para conseguir clandestinamente, no bar, uma garrafa de champanhe. Aliás, sua não, de Julia Roberts. “Julia quer champanhe!”, exigiu o ator. O casal, então, brindou, e ela se acalmou.
Outra de Julia: a atriz não gosta de descer as escadas que usualmente decoram os cenários grandiosos da cerimônia. Ela ordena que sua entrada em cena seja sempre por um caminho plano.
Das dez cerimônias acompanhadas por The Big Show , a festa que consagrou Titanic foi a de maior audiência, comprovando que o público só se interessa pela premiação quando já viu e aprova sumariamente os filmes indicados. Em contrapartida, as piores estatísticas pintaram em 1996 (ano de Fargo e O Paciente Inglês ) e em 2003 (ano de O Pianista e Chicago ). |