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10 a 23 de julho de 2005
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PARA GOSTAR
Um breve perfil de Isabela Boscov, a melhor crítica de cinema brasileira da atualidade
por Marcel Nadale (mnadale@rabisco.com.br)

onfesso que, no Orkut, faço parte de algumas comunidades cujos temas são esdrúxulas e que, por isso, contam com um número reduzido de membros. Um grupo dedicado ao cão quase alienígena do meu amigo tem 16 participantes. Outro, dedicado a venerar uma das minhas melhores amigas, conta com uma dúzia. Mas nem imaginava que, ao ingressar uma comunidade sobre a crítica de cinema Isabela Boscov, ela seria a lanterna na minha lista. Só eu e mais oito internautas estão dispostos a discutir o trabalho estupendo que Isabela já realiza há cerca de seis anos na revista de maior circulação no país, a Veja – e o único tópico de debate lá, veja só, é “Eu não gosto dela”.

Talvez seja a menção à Veja – e o arqueio de sobrancelhas em puro descrédito que ela costuma causar – o motivo pelo esvaziamento da comunidade, enquanto tantas outras dedicadas ao cinema fervilham com centenas de inscritos. Embora também não seja fã da linha editorial da revista, consigo dissociar perfeitamente empregador e funcionária. Isabela, assim como os colunistas André Petry e Diogo Mainardi, é, de longe, o melhor motivo para se comprar e ler a Veja.

Mais provável, contudo, é que a comunidade de Isabela Boscov não seja popular porque mais desacretidada do que a Veja está a classe crítica como um todo. Por uma série de motivos que nem sei se convém explanar (até porque o assunto, volta e meia, acha de se embrenhar nessa coluna), não existe mais a necessidade de se ler, quanto mais de se discutir, um bom artigo sobre cinema. Eu até pensei em começar uma irônica campanha “adote um crítico”, aqui mesmo na RecenteMente , com uma série de perfis de grandes nomes da área, mas, para ser sincero, acompanho nomes demais e nenhum com a regularidade que deveria. Entre os fixos, muito mais por mérito do que apenas pela comodidade da assinatura e do hábito, só mesmo Isabela e Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo (que, não por um acaso, Isabela considera seu “tutor”).

Tomo a liberdade, então, de só discutir o trabalho dela, ampliando uma pequena súmula que postei no Orkut. Tive a oportunidade de entrevistá-la quando realizei meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre crítica de cinema, em 2002, o que só fez aumentar minha admiração, antes restrita apenas à qualidade de seu texto e de sua crítica – e não necessariamente de seu gosto. Desde então, passei a considerar também sua postura diante da indústria cinematográfica e da indústria editorial uma baliza para qualquer outro que, como eu, aspira a ser um crítico de cinema (ou um crítico de cinema cada vez melhor). É na arenosa intersecção desses dois universos, cada qual com suas crises, que o crítico precisa aprender a fincar seus pés, e descobri, durante aquela entrevista, que Isabela o faz muito bem.

Contudo, são por seus textos, reflexo dessa sensatez, que mais tradicionalmente entramos em contatos com seu trabalho. É por eles que acho que se pode perceber a qualidade híbrida de Boscov: uma análise realmente aguçada do que vê transposta de maneira simples, mas não redutória, para o leitor que, muitas vezes, sequer vai conferir o filme discutido. “Eu trabalho numa revista que é lida por mais ou menos cinco milhões de pessoas por semana”, disse Isabela na entrevista. “É importante, numa publicação com o perfil para a qual trabalho, ser acessível. É importante você conquistar as pessoas para ver cinema, para entender cinema, para gostar de cinema”. Para Boscov, nesta missão, é preciso equilibrar entre dois extremos: o paternalismo, tratando o leitor como idiota (e não desafiando-o como toda boa crítica deve fazer), e a vaidade do autor, querendo exibir todo seu conhecimento acumulado e sacrificando a legibilidade. “Crítico às vezes tende a escrever para outros críticos e eu pelo menos acho essencial não perder de vista que aquilo se destina ao leitor”, afirma.

Boscov sabe bem abrir mão dessa vaidade, porque conhecimento acumulado não lhe falta. Formada em jornalismo pela ECA-USP (ainda que hoje não considere o diploma essencial para o crítico), a crítica da Veja começou a carreira no Jornal da Tarde , onde ficou um ano. Depois, ficou mais seis na Folha de S. Paulo , cobrindo áreas tão diversas quanto ciências, cotidiano, um pouco de política e muito de cultura. Na “Ilustrada”, foi repórter, crítica, fechadora, de tudo um pouco. Na Set , a paixão pelo cinema engrenou ainda mais. Ficou cinco anos e, enfim, chegou à Veja . “Acho que, para um jornalista se tornar crítico, nada melhor do que passar por um pouco dessa variedade que enfrentei involuntariamente”, diz. “Dá uma visão mais abrangente da coisa”.

Esse pluralismo também é essencial para que o crítico “não emburreça”. Boscov vê entre 12 e 15 filmes por semana e acha que é demais. Muito mais do que gostaria. “Se você fica girando tanto em torno do mesmo tema, não consegue mais estabelecer relações entre aquilo na tela e o mundo”, diz. Daí a importância de não apenas ser um fã de cinema ou teatro, literatura, música, mas também a de lidar, profissionalmente, com outras áreas, como a política, a ciência e a economia.

Destes quinze filmes semanais, Isabela comenta não mais que três, devido ao espaço limitado. Mesmo quando conta com poucos parágrafos, faz um ótimo trabalho. Mas destaca-se ainda mais quando consegue ampliar seus textos não apenas em páginas mas em ambição, como quando tornou Cruzada um gancho para a discussão das relações entre católicos e muçulmanos (um paralelo do qual o próprio filme se exime, uma pena). Foi um primor de pesquisa e apuração, um exemplo do que sua formação como repórter pode acrescentar à de crítica. Outros filmes, geralmente menores, ela enxerga pelos olhos de seus diretores ou atores, traçando perfis inteligentes hoje tão raros no jornalismo de celebridade. Foi assim com Gene Hackman quando do lançamento de O Assalto , outra pérola. E, mesmo quando se limita exclusivamente ao universo dos filmes que analisa, Boscov se destaca. Não vi mais ninguém analisar Colateral exclusivamente pela relação que os personagens de Tom Cruise, Jamie Foxx e Jada Pinkett-Smith mantinham com o trabalho. E, a meu ver, foi o prisma mais acertado de todos.

Sobretudo, o trabalho de Isabela Boscov me parece constante – fruto de uma certeza de posturas que é alimentada não pela petulância, mas pela experiência. Semana após semana, ela costuma nos brindar com grandes críticas, às vezes alguns artigos, às vezes algumas entrevistas. A fonte não esgotou nos últimos anos e parece que vai continuar jorrando, até que Boscov se torne uma das figuras “irremovíveis” (ou “imorríveis”) da Veja . Seu segredo é bem simples: “Eu tenho a seguinte filosofia: eu tenho tanto prazer de ir ao cinema, é um negócio que me dá tanta alegria, que eu gostaria que as pessoas se entusiasmassem a ir também”.