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24 de julho a 6 de agosto de 2005
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RECENTEMENTE #82

(CRIE SEU PRÓPRIO TROCADILHO AQUI)
Todo o horror que falta a Amaldiçoados transbordou em seus conturbados (e muito mais interessantes) bastidores
por Marcel Nadale (mnadale@rabisco.com.br)

cultura de expectativas gerada e manejada tão habilmente pela indústria de cinema pode parecer nociva na maioria das vezes, mas, quando foge ao controle até mesmo dos grandes estúdios (e das grandes empresas de relações públicas que os assessoram), nos permite observar, com uma clareza sem igual, as engrenagens que movem e trituram o “xoubísnes”. Vejam, por exemplo, o caso de Amaldiçoados , filme de terror que estreou dia 15 no Brasil. Ou melhor: não, não vejam. Embora produzido por dois especialistas no gênero, o diretor Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson, Amaldiçoados parece ter sido vítima do seu próprio título e sofreu com uma zica desgraçada. Rodado, reescrito, refilmado e reeditado milhões de vezes, o resultado final, nas telas, é pífio. Verdadeiramente vergonhoso. Não vale a pena ver. A ironia é que o filme emapalidece ainda mais diante da história (de real horror) que se desenrolou nos seus bastidores – esta sim, cativante, e que foi devidamente relatada por notinhas sarcásticas e fofocas desmentidas no enxame de sites de fãs que democratizam os segredos de Hollywood.

O fiel e tarado público de horror aguardavam a retomada da dobradinha Craven/Williamson desde que o roteirista, estafado, não pôde redigir de próprio punho o script de Pânico 3 , como fizera nos dois episódios anteriores. O filme ressentiu-se da ausência da criatividade de Williamson e é considerado consensualmente o pior dos três. Em 2003, quando Williamson já não mais era considerado hot property em Hollywood, após o encerramento da trilogia e a decadência de sua série autobiográfica, Dawson's Creek , finalmente foi anunciado o retorno da parceria. Williamson e Craven, que haviam renovado o gênero slash , queriam agora revitalizar outra paixão juvenil de ambos: os filmes de lobisomem.

Development hell

Para alegria dos órfãos de Pânico , seriam empregados até mesmo um protagonista de cada um dos filmes: Skeet Ulrich, do primeiro; Omar Epps, do segundo; e Scott Foley, do terceiro. A notícia correu rápido e outros nomes associaram-se ao projeto – num mix saudável de apelo crítico, como as veteranas Christina Ricci e Illeana Douglas, e de apelo popular, como a cantora/atriz Mandy Moore e o eterno goonie Corey Feldman. As filmagens iniciaram sob a tutela da Dimension Films, a mesma subsidiária da Miramax responsável por Pânico , com a previsão de lançamento para 8 de agosto de 2003. “Eu não poderia estar mais excitado com esta reunião, no que acredito que vai ser um novo filme divertido, assustador e popular”, dizia o chefão da Miramax, Harvey Weinstein.

Bom, já pelo atraso (o filme chegando aqui dois anos depois do previsto), você percebe que as coisas não correram tão bem quanto Weinstein queria. Os problemas começaram a chamar a atenção da imprensa quando o guru das maquiagens Rick Baker, vencedor de seis Oscars, caiu fora da produção – e não se sabe se simultaneamente ou antes de as filmagens serem forçadas em um hiato de quatro semanas, supostamente porque a Dimension não aprovava a qualidade dos efeitos especiais. Corria à boca miúda, porém, que igualmente problemático era o desfecho do filme, que previa, ao invés de um único lobisomem como causador de todo o problema, a existência de diversos “semi-lobisomens”. Williamson já havia empregado o artifício de dividir a culpa entre dois assassinos com excelentes resultados no final do primeiro Pânico , mas o conceito de “semi-lobisomens” era considerado meio duro de engolir.

Agendas em choque

Não há catástrofe, porém, que não possa ficar pior. O atraso de um mês entrou em choque com a agenda de Ricci, que logo em seguida rodaria Monster , o filme independente que rendeu um Oscar a Charlize Theron. Na premissa original de Amaldiçoados , Ricci vivia a produtora de um talk-show cuja vida se cruzava com a dos personagens de Ulrich e de Jesse Eisenberg após um acidente de carro em Los Angeles. Os três, aparentemente, eram infectados por um lobisomem e, enquanto lidavam, para o bem ou para o mal, com os dons que a licantropia começava a lhes proporcionar, precisavam unir forças e caçar o monstro que os havia ferido, cuja identidade “diurna” era alguém próximo a seu círculo de amizades.

Enquanto Williamson reescrevia o final do filme, Craven violava a santidade da regra número 1 em Hollywood: evite a má publicidade. “Tem sido um longo e árduo processo, e francamente eu já estou de saco cheio e quero sair e ir fazer algo com o qual me sinta bem”, desabafou em entrevista, em agosto de 2003, à Sci-Fi Wire . “Uma quantidade bastante extraordinária de material vai ter de ser filmada e muita coisa antiga vai ter de ser jogada fora”.

Do final do filme, Williamson foi forçado a repensar todo o começo. Houve mais de vinte versões diferentes da história, cada uma alterando algum momento da trama. Ao mesmo tempo, o autor sofria pressão para encaixar o máximo possível do que já havia sido rodado, para evitar mais atrasos e despesas. Foi um verdadeira quebra-cabeças remendado tanto no papel quanto no estúdio, em que atores voltavam à antiga cenas apenas para adicionar um outro diálogo que redirecionavam a trama. Isso, claro, quando os atores voltavam. Substituições no elenco pareciam iminentes.

A primeira baixa foi Ulrich. No novo script, o trio de protagonistas ganhava laços pré-existentes: ele era o namorado de Ricci, que por sua vez era irmã mais velha de Eisenberg. Com seu personagem claramente diminuído, Ulrich decidiu cair fora de vez. Surgiu um novo interesse romântico para a heroína, a ser interpretado por Joshua Jackson (da série Dawson's Creek ). O terceiro ato da trama, que se desenrolaria num museu de cera, foi reambientado em uma danceteria com inspiração nos grandes clássicos de terror, gerenciada pelo personagem de Jackson (o que talvez tenha sido uma boa idéia, já que algum tempo depois entrou em produção A Casa de Cera, um remake ruim que, mesmo assim, consegue ser melhor que Amaldiçoados ). A direção de arte pôde reaproveitar na boate a decoração planejada para o museu, ajudando a diminuir os gastos extras, que a essa altura já estavam entrando em órbita.

De volta à estaca zero

Em 17 de novembro de 2003, quando o hiato de quatro semanas havia completado mais de dez, Amaldiçoados voltou a ser filmado; agora seria praticamente um novo longa-metragem, a ser rodado do zero. Feldman, Foley e Douglas haviam dançado. A personagem de Mandy Moore, a primeira vítima do monstro, em uma festa beneficiente contra o uso de pele de animais, teve de ser substituída por outra cantora/atriz, Mya. Além disso, a festa (uma breve janela para a ironia criativa de Williamson, que está, sim, em algum lugar do filme) foi transferida do início da trama para quase 50 minutos depois. Para a introdução, foi empregado o pior clichê do gênero: uma vidente de araque (ou não), vivida pela novata Portia de Rossi (da série Arrested Development ), previa “um grande perigo” para as personagens de Mya e Shannon Elizabeth (a gostosona estrangeira de American Pie ).

Em dezembro, mais novidades no elenco: Epps havia caído e Judy Greer ( De Repente 30 ) e Lance Bass, do conjunto N'Sync, haviam sido contratados. A situação de Ricci ainda estava incerta, mas, o que não tem remédio, remediado está: houve tanto atraso em Amaldiçoados que deu tempo da atriz ir rodar Monster e voltar. Por outro lado, o caçula Eisenberg, interpretando um colegial que sempre apanhava dos colegas e passava a revidar depois que ganhava superforça com a licantropia, representava outro problema: estava envelhecendo a olhos vistos, o que afetaria a continuidade. Motivado por outros trabalhos, seu corte de cabelo também mudara – e foi incluído no filme um desnecessário remendo para que ele justifique a troca do visual de nerd pelo de garanhão. Com esses altos e baixos, o site JoBlo chegou a apelidar a produção como Survivor – parecia que toda semana havia uma reunião em que os chefões votavam quem ficava e quem saía, como no popular reality show da CBS.

A adição de galãs como Bass e Jackson afastava Amaldiçoados de sua intenção original, uma reinvenção adulta das histórias de lobisomem, e parecia aproximá-lo dos diversos filmes de horror que miram num público composto por menininhas pré-adolescentes. Wes Craven continuou jogando lenha na fogueira, afirmando publicamente que nunca havia desejado participar da produção, e que queria, na verdade, rodar Pulse , com Kirsten Dunst ( Homem-Aranha ), mas havia sido praticamente coagido pela Dimension a mudar de planos.

Qual o resultado?

Somente em maio de 2004 “vazou” aos sites a primeira foto oficial de Amaldiçoados . Parece tarde? Pois o primeiro pôster chegou quatro meses depois, em setembro, junto com a data de lançamento oficial: 25 de fevereiro de 2005 (e que depois foi adiada para primeiro de março). Um ano e meio de atraso em relação ao sonhado 8 de agosto de 2003. O problema é que a própria má reputação do filme “amaldiçoou” sua estréia. Toda a indústria já imaginava que seria uma bomba. A Dimension, então, quebrou a cabeça para achar uma data, porque se o liberasse no final do ano de 2004, seria massacrado pelos grandes lançamentos de Natal, férias e Oscar. A infame “geladeira” de fevereiro/março foi o que lhe sobrou.

Nesse ínterim, Craven já não estava nem aí. Em agosto, enquanto Amaldiçoados , ia para a pós-produção em efeitos especiais, o diretor já anunciava o elenco de seu próximo filme, Red Eye , que chegara ao Brasil em agosto, com o título Vôo Noturno . Os protagonistas são Rachel McAdams ( Meninas Malvadas ) e Cillian Murphy ( Batman Begins ). Não, não houve nenhuma reescalação desde o anúncio...

Para martelar o último prego no caixão, o filme foi lançado nos EUA sem ser exibido antecipadamente para a crítica. Ou seja, era como se todos os envolvidos assumissem publicamente que estavam envergonhados do produto final. E realmente deveriam. O filme é absolutamente errado. Não há uma única característica ou cena que o redima.

Atuações toscas. Tramas remendadas. Tensão zero. Lobisomens que parecem cachorros. E que não mordem as vítimas, ficam só jogando-as de um lado para o outro. Christina Ricci farejando sangue no escritório. Uma sub-trama gay com o carimbo de Williamson. Enfim, tudo, tudo, tudo equivocado.

Houve, contudo, quem ainda acreditasse que o apelo de Williamson e Craven fosse o suficiente para que o filme estreasse em primeiro num mês de tão baixa competitividade. Mas o público reagiu como o esperado. Amaldiçoado obteve a quarta colocação em seu primeiro fim de semana, atrás de Diário de uma Louca . Rendeu apenas US$ 9,6 milhões. Caiu na semana seguinte para sétimo colocado no ranking, com mais US$ 3,9 milhões. E assim foi sucessivamente pisoteado, por Be Cool – O Outro Nome do Jogo e depois por Robôs . No Brasil, o filme tem chances um pouco melhores, já que o publico gosta tanto de filmes de terror que se contenta com qualquer porcaria. Nesta mesma época, nos EUA, o filme está chegando em DVD, numa “versão do diretor”, que promete consertar o que não tem conserto.

E, por falar no diretor, podemos respirar aliviados que Craven, aparentemente, já está seguindo adiante. Mas quanto ao roteirista... Provavelmente, não mais ouviremos falar de Williamson, e, se o fizermos, não prestaremos atenção. Sua chance de um fenomenal retorno rendeu esse desastre – uma derrocada que, se você parar para pensar, chega a ser hollywoodiana em essência. Antes Williamson, que brincou de diretor em Tentação Fatal , tivesse empunhado uma câmera e rodado os bastidores de Amaldiçoados – renderia um ótimo documentário, como o clássico que registrou os apuros na seqüência de Toxic Avenger . No mínimo, como você já pode ter notado, seria uma história mais dramática do que lobisomens atacando boates repletas de canastrões em Los Angeles...