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24 de setembro a 8 de outubro de 2005
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RECENTEMENTE #85

MEA CULPA ATRASADA
Momento de glória: estúdios começam a admitir publicamente que o espectador não é tão burro quanto eles imaginavam
por Marcel Nadale (mnadale@rabisco.com.br)

stá ficando difícil um filme que não é um grande evento criado pelos meios de comunicação encontrar uma platéia, por melhor que seja. E se um filme foi transformado num evento, não precisa ser bom; um evento (...) atrai a platéia simplesmente por sê-lo. Não se espera que o Monte Rushmore seja uma obra de arte, mas se estivermos por perto, temos de ir lá”.

Se você, como eu, se interessa pelos rumos artísticos e mercadológicos do cinema, provavelmente já leu uma dúzia de artigos com o mesmo teor da citação acima (talvez não com uma metáfora tão inteligente no final). Vivemos uma época de óbvia demonização do blockbuster e total descrença no poder de discernimento do espectador, aliada à impotência da crítica diante da pujança do marketing das distribuidoras.

Mas e se eu te contar que nem tudo é assim? Nem tudo é tão fácil assim, ou tão verdadeiro assim?

As aspas acima não foram extraídas de um texto deste fatídico ano de crise no cinema. Não são, sequer, desta década ou dos últimos vinte anos. É um excerto do nostradâmico “Do Futuro do Cinema”, que a crítica Pauline Kael publicou na The New Yorker , acredite ou não, em 1974. As reticências substituem o filme-evento que motivou sua caneta: Papillon . Dificilmente, nossa escolha mais evidente quando o termo “blockbuster” vem à mente. Estamos tão acostumados a considerar nossa Era do Blockbuster inaugurada oficialmente com o lançamento em amplitude nacional de Tubarão , em 1975, que esquecemos uma contextualização anterior, uma gradação histórica. Nem Steven Spielberg jamais teve o poder de perverter um panorama econômico com uma única tacada.

A fixação da crítica pela Era do Blockbuster não é nova, portanto. E não é, sempre, altruísta. Constitui, na verdade, um paliativo ao vácuo pós-moderno que acometeu todas as artes. Não há mais escolas, não há mais movimentos. O último foi a Nouvelle Vague, ponto final (e daí sua hipervalorização, correta ou não). Hoje, há, no máximo, cinematografias nacionais de interesse. Tivemos a do Irã. Tivemos a da Argentina. E estamos tendo a da China, da Coréia. Todas, perdidas no circuito em uma massa homogênea de produções comerciais americanas, que, supunha-se, o poder do marketing tratou de tornar, a cada temporada, heterogênea.

Mas nunca acreditei que o público fosse burro. Os elementos no seu padrão de escolha, na fila de uma bilheteria, não são rígidos, sondáveis ou manipuláveis – especialmente em se tratando de um público nacional diante do produto de uma sociedade que lhe é estrangeira, diferente. Me dá orgulho notar que, mesmo em meio às deformações que são a maioria, há um ou outro engodo em que o público não cai. E, diante, agora, de um ano que vai deixar perplexo os estudiosos financeiros da sétima arte por muito tempo, finalmente parece que não sou mais minoria.

A Sony Pictures teve uma sucessão de fracassos nesta temporada, como o remake de A Feiticeira e Stealth – Ameaça Invisível (ambos estréiam em setembro no Brasil). Confrontado pelo New York Times com os índices de queda de 9% na venda de ingressos e 11,5% na renda dos longas-metragens, em contraste com 2004, o presidente do conselho da Sony, Michael Lynton, confessou com o arrependimento de um criminoso: “Parte do problema se deve ao fato de que os filmes não vêm cumprindo as expectativas das audiências”. E, particularmente, o depoimento que me deixa com o coração saltitante: “Os espectadores já conhecem todos os truques de marketing e conseguem diferenciar os bons filmes e distingui-los dos ruins sem nenhuma dificuldade”. (Isto, vindo da empresa-mãe da Columbia, a distribuidora que se envolveu há cinco anos no emblemático escândalo da criação de um crítico de cinema fictício que sempre elogiava seus produtos).

O clima de penitência e súbita epifania é geral. No mesmo artigo, Marc Shmuger, o vice-presidente do conselho da Universal, chegou ao ponto de reconhecer que uma parcela dos seus títulos para o verão jamais deveria ter sido sequer produzida. Conclui: “As pessoas estão começando a perceber que aquilo que viam como grande diversão de verão em temporadas passadas na verdade não era tão divertido”. Amém.

Ao que tudo indica, estamos vivendo tempos de mudança, e estou feliz de bancar o trombeteiro do apocalipse. A fórmula que Kael preconizou e temeu foi esbagaçada até a última gota pelas distribuidoras, e agora os homens de terno, os últimos como sempre, começam a admitir que não mais estamos à sua mercê. Nunca declaramos tanto amor ao cinema quanto atualmente, quando você o pretere pela novela e eu fico em casa jogando videogame. E assim, a Era dos Blockbusters como a conhecemos, iniciada muito antes do que gostaríamos de admitir, também está terminando mais cedo do que todos estão percebendo.