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RECENTEMENTE #35
O ANTE E ANTI-OSCAR
Não importa quem ganha ou
quem perde: no Globo de Ouro o que vale é a diversão
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 queles
que leram minha
coluna #30 sabem que não troco uma boa noite de sono
por qualquer programa. Em 2002, contrariando pela primeira vez uma
longa tradição, me recusei a assistir ao Oscar. Não
havia visto boa parte dos filmes indicados e guardava más
recordações da festa do ano anterior – longa,
enfadonha e definitivamente indigna de uma noite mal dormida. Este
ano, estava pronto para acompanhar a 60ª edição
do Globo de Ouro, no canal a cabo Sony, apenas até o ponto
em que não interferisse na minha soneca. Poderia dormir o
sono dos justos, sabendo que havia cumprido ao menos parcialmente
meu dever jornalístico e crítico.
Ao longo da cerimônia, porém, algo chocante
se sucedeu – e não me refiro a Meryl Streep ajeitando
os peitos no decote sem nenhum pudor em frente às câmeras!
Não! Muito mais inesperado foi descobrir que eu estava me
divertindo com a cerimônia. A vencedora da categoria de atriz
coadjuvante teve, de fato, alguma responsabilidade pelo fenômeno.
Meryl foi a primeira a subir no palco, por seu trabalho em Adaptação,
e quebrou tanto (ou mais) protocolo com seu discurso quanto com
seus peitos indiscretos que não paravam no lugar. “Eu
nem imaginava que ia ganhar. Estava lá no meu lugar, preparada
para suportar longas noites de inverno”, disse a atriz, revelando
notável bom humor e alfinetando a premiação,
que não a congratulava desde 1983 (sendo que ela já
havia sido indicada 20 vezes!).
A leveza e informalidade de Meryl foi ecoada em todos
os discursos seguintes. Kim Cattral abriu seu agradecimento com
a mesma finesse de sua personagem caliente em Sex and the City:
“Vocês não imaginam com quantos homens tive de
dormir para receber este prêmio!”. O veteraníssimo
e ótimo Donald Sutherland, vencedor como melhor coadjuvante
em TV, mandou a sua: “Caros concorrentes, saibam que eu só
fui escolhido porque sou mais velho que vocês!... O que eu
acho extremamente justo!”. Houve até mesmo humor involuntário:
Edie Falco, que nunca recebe prêmios o suficiente por sua
ótima matriarca Carmela em Família Soprano,
não pode agradecer o Globo porque estava com faringite. Sua
tentativa afônica de explicar-se arrancou risos da platéia
de famosos.
O
que havia acontecido com as celebridades? Cadê aquele clima
hollywoodiano de estrelismos e guerra de egos? Teria a Hollywood
Foreign Press Association, responsável pela entrega do Globo
e Ouro, colocado LSD na comida do jantar? Não. Mas, se há
um culpado neste crime perfeito, há de se olhar primeiro
no arquivo da HFPA. Trata-se de um grupo de correspondentes estrangeiros
que se uniu no auge da xenofobia na Segunda Guerra Mundial para
trocar informações a respeito da indústria
cinematográfica e a respeito de seus países, cidades-natal
e famílias na distante Europa. O clima de camaradagem imperou
por sessenta anos, provou o Globo de Ouro neste domingo, dia 19.
Warren Beatty, fingindo esconder sua sabedoria atrás
da canastrice, costumava dizer que “o Oscar é negócio;
o Globo de Ouro é diversão”. Vários fatores
ajudam a reduzir o nível de estresse do Globo de Ouro. Em
primeiro lugar, as categorias são subdividas em drama ou
comédia/musical, o que duplica o número de felizardos.
Além disso, são apenas 90 votantes da HFPA (três,
aliás, são brasileiros), todos muito mais liberais
do que os da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas
(responsável pela entrega do Oscar). No Globo, até
mesmo Madonna, Brad Pitt e Tom Cruise já foram laureados
como melhores atores. Para completar, a noite de premiação
em si também busca a integração, com poucos
convidados (só 1100), todos sentados em mesas redondas para
um animado jantar.
Para
o espectador, a diferença também é nítida.
Sabe aqueles balés chatíssimos do Oscar, que a cada
ano parecem mais desnecessários? Esqueça. Clipes com
a apresentação de todas as músicas concorrendo
a melhor canção? De jeito nenhum. Piadinhas de gosto
duvidoso de um apresentador pouco inspirado? Também não.
No Globo de Ouro, é assim: anuncia-se a categoria, lê-se
os indicados, revela-se o vencedor, ele discursa, sobe a música
e pronto. Próxima categoria. Pá-pum.
É por essas e outras que o Globo de Ouro já
é o prêmio mais batuta da indústria cinematográfica
americana. É tudo aquilo que o Oscar deveria aspirar a ser.
Infelizmente, porém, o Oscar costuma endossar boa parte das
predileções do Globo, mas não sua estrutura
enquanto espetáculo. Tudo bem: um passo de cada vez. Se este
ano o pessoal da Academia também partilhar suas estatuetas
entre Chicago e As Horas, já me dou por satisfeito.
Talvez até esteja acordado para celebrar.
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