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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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RECENTEMENTE #35

O ANTE E ANTI-OSCAR
Não importa quem ganha ou quem perde: no Globo de Ouro o que vale é a diversão

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

queles que leram minha coluna #30 sabem que não troco uma boa noite de sono por qualquer programa. Em 2002, contrariando pela primeira vez uma longa tradição, me recusei a assistir ao Oscar. Não havia visto boa parte dos filmes indicados e guardava más recordações da festa do ano anterior – longa, enfadonha e definitivamente indigna de uma noite mal dormida. Este ano, estava pronto para acompanhar a 60ª edição do Globo de Ouro, no canal a cabo Sony, apenas até o ponto em que não interferisse na minha soneca. Poderia dormir o sono dos justos, sabendo que havia cumprido ao menos parcialmente meu dever jornalístico e crítico.

Ao longo da cerimônia, porém, algo chocante se sucedeu – e não me refiro a Meryl Streep ajeitando os peitos no decote sem nenhum pudor em frente às câmeras! Não! Muito mais inesperado foi descobrir que eu estava me divertindo com a cerimônia. A vencedora da categoria de atriz coadjuvante teve, de fato, alguma responsabilidade pelo fenômeno. Meryl foi a primeira a subir no palco, por seu trabalho em Adaptação, e quebrou tanto (ou mais) protocolo com seu discurso quanto com seus peitos indiscretos que não paravam no lugar. “Eu nem imaginava que ia ganhar. Estava lá no meu lugar, preparada para suportar longas noites de inverno”, disse a atriz, revelando notável bom humor e alfinetando a premiação, que não a congratulava desde 1983 (sendo que ela já havia sido indicada 20 vezes!).

A leveza e informalidade de Meryl foi ecoada em todos os discursos seguintes. Kim Cattral abriu seu agradecimento com a mesma finesse de sua personagem caliente em Sex and the City: “Vocês não imaginam com quantos homens tive de dormir para receber este prêmio!”. O veteraníssimo e ótimo Donald Sutherland, vencedor como melhor coadjuvante em TV, mandou a sua: “Caros concorrentes, saibam que eu só fui escolhido porque sou mais velho que vocês!... O que eu acho extremamente justo!”. Houve até mesmo humor involuntário: Edie Falco, que nunca recebe prêmios o suficiente por sua ótima matriarca Carmela em Família Soprano, não pode agradecer o Globo porque estava com faringite. Sua tentativa afônica de explicar-se arrancou risos da platéia de famosos.

O que havia acontecido com as celebridades? Cadê aquele clima hollywoodiano de estrelismos e guerra de egos? Teria a Hollywood Foreign Press Association, responsável pela entrega do Globo e Ouro, colocado LSD na comida do jantar? Não. Mas, se há um culpado neste crime perfeito, há de se olhar primeiro no arquivo da HFPA. Trata-se de um grupo de correspondentes estrangeiros que se uniu no auge da xenofobia na Segunda Guerra Mundial para trocar informações a respeito da indústria cinematográfica e a respeito de seus países, cidades-natal e famílias na distante Europa. O clima de camaradagem imperou por sessenta anos, provou o Globo de Ouro neste domingo, dia 19.

Warren Beatty, fingindo esconder sua sabedoria atrás da canastrice, costumava dizer que “o Oscar é negócio; o Globo de Ouro é diversão”. Vários fatores ajudam a reduzir o nível de estresse do Globo de Ouro. Em primeiro lugar, as categorias são subdividas em drama ou comédia/musical, o que duplica o número de felizardos. Além disso, são apenas 90 votantes da HFPA (três, aliás, são brasileiros), todos muito mais liberais do que os da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (responsável pela entrega do Oscar). No Globo, até mesmo Madonna, Brad Pitt e Tom Cruise já foram laureados como melhores atores. Para completar, a noite de premiação em si também busca a integração, com poucos convidados (só 1100), todos sentados em mesas redondas para um animado jantar.

Para o espectador, a diferença também é nítida. Sabe aqueles balés chatíssimos do Oscar, que a cada ano parecem mais desnecessários? Esqueça. Clipes com a apresentação de todas as músicas concorrendo a melhor canção? De jeito nenhum. Piadinhas de gosto duvidoso de um apresentador pouco inspirado? Também não. No Globo de Ouro, é assim: anuncia-se a categoria, lê-se os indicados, revela-se o vencedor, ele discursa, sobe a música e pronto. Próxima categoria. Pá-pum.

É por essas e outras que o Globo de Ouro já é o prêmio mais batuta da indústria cinematográfica americana. É tudo aquilo que o Oscar deveria aspirar a ser. Infelizmente, porém, o Oscar costuma endossar boa parte das predileções do Globo, mas não sua estrutura enquanto espetáculo. Tudo bem: um passo de cada vez. Se este ano o pessoal da Academia também partilhar suas estatuetas entre Chicago e As Horas, já me dou por satisfeito. Talvez até esteja acordado para celebrar.