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RECENTEMENTE #40
PARABÉNS POR QUÊ?
Desemprego, baixa renumeração
e abandono de ideais: há cada vez menos razão para
se comemorar o dia do jornalista
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
uase
que esta quinzena passa sem RecenteMente. O único assunto
que me inspirava a escrever era minha recente semi-demissão
do meu outro emprego. O site onde trabalho está passando
por turbulências financeiras e, claro, quem leva ferro sempre
são os funcionários. Entretanto, temendo diluir para
sempre as fronteiras entre coluna e blog egocêntrico, deixei
o assunto de lado.
Eis que hoje, quando menos esperava, recebi em minha caixa postal
um cartão virtual repleto de ironia involuntária,
me congratulando pelo dia do jornalista – 7 de abril. Acho
que era uma mensagem divina. Coincidência ou não, voltei
atrás. Vou escrutinar publicamente minha total frustração
com a profissão que escolhi há quatro anos, numa aureolazinha
preenchida de grafite numa ficha de inscrição da FUVEST.
Não, não há o que comemorar. Infelizmente,
acabei de me formar numa profissão sobre a qual criou-se
uma mítica desgraçada, muito mais nociva do que nobre.
Hoje, em qualquer redação (pior: em qualquer sala
de aula da faculdade), ainda se acredita que jornalista é
um bicho feito para trabalhar doze horas por dia. Feito para sacrificar
sono, fome, relógio biológico e, principalmente, vida
social, em nome da falácia idiota de que “notícia
não tem hora para acontecer”. Somente no cérebro
ganancioso de um editor ou dono de jornal mau-caráter esse
tipo de balela serve como justificativa para ignorar qualquer direito
trabalhista ou qualquer respeito a uma existência digna.
A minha mais triste constatação é que este
não é o único exemplo em que o jornalismo torna-se
vítima dos próprios sonhos que alimenta. Uma amiga
tentou publicar um artigo como freelancer em um jornal de grande
circulação daqui de São Paulo. O editor acolheu
o texto com dezenas de elogios. Dinheiro, porém, nada. Segundo
a crença do editor, o repórter deveria abdicar da
remuneração em troca da suposta honra de ver seu nome
publicado no prestigioso veículo – que, às beiras
da bancarrota, de prestigioso tem cada vez menos.
Trata-se de um caso isolado, mas minha recente demissão
me incutiu a certeza de que a exceção, em breve, há
de se tornar a regra. Especialmente no que se refere ao jornalismo
cultural, um gênero que arrebanha mais e mais desavisados
nas faculdades de comunicação. Já pululam por
aí centenas de revistas como o Rabisco, única
válvula de escape para uma geração que não
tem como ser absorvida pelo mercado. A julgar pelo andar da carruagem,
em breve minha profissão será isso mesmo que é
o Rabisco: um hobby, mantido a duras penas por um
outro emprego “sério” e menos prazeroso.
Esse emprego, possivelmente, será uma assessoria de imprensa
qualquer – o único setor que ainda emprega minha gente.
Não me deixa de parecer um tanto emblemático dos interesses
da nossa sociedade atual: há trabalho para se fabricar notícia,
mas não para apurá-la. Ninguém quer a verdade;
o que todo mundo quer é um acordo tácito marqueteiro
que possa simular a idéia de comunicação.
A divagação vai longe. Não há
uma única pessoa entre meus ex-colegas de faculdade que escolheu
jornalismo porque tinha um passional desejo de atuar como assessor
de imprensa. E, no entanto, destes meus 25 colegas, 7 responderam
ao meu email em busca de uma nova oportunidade de emprego com um
solidário: “é, também estou desempregado”.
Seremos todos assessores frustrados? Jornalistas de fim de semana
e de blogs casuais? Não sei, mas este dia funesto do meu,
encerro aqui.
Em tempo: tenho recebido muitos emails lamentando
a consecutiva ausência da coluna Boteco, assinada pelo meu
amigo Leopoldo Godoy. Também sinto falta do espaço.
Léo, porém, anda afastado por motivos de saúde.
Vamos torcer para que o quadro dele se estabilize e a gente possa
voltar a se deliciar com sua conversa de bar.
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