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11 a 24 de abril de 2003


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RECENTEMENTE #40

PARABÉNS POR QUÊ?
Desemprego, baixa renumeração e abandono de ideais: há cada vez menos razão para se comemorar o dia do jornalista

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

uase que esta quinzena passa sem RecenteMente. O único assunto que me inspirava a escrever era minha recente semi-demissão do meu outro emprego. O site onde trabalho está passando por turbulências financeiras e, claro, quem leva ferro sempre são os funcionários. Entretanto, temendo diluir para sempre as fronteiras entre coluna e blog egocêntrico, deixei o assunto de lado.

Eis que hoje, quando menos esperava, recebi em minha caixa postal um cartão virtual repleto de ironia involuntária, me congratulando pelo dia do jornalista – 7 de abril. Acho que era uma mensagem divina. Coincidência ou não, voltei atrás. Vou escrutinar publicamente minha total frustração com a profissão que escolhi há quatro anos, numa aureolazinha preenchida de grafite numa ficha de inscrição da FUVEST.

Não, não há o que comemorar. Infelizmente, acabei de me formar numa profissão sobre a qual criou-se uma mítica desgraçada, muito mais nociva do que nobre. Hoje, em qualquer redação (pior: em qualquer sala de aula da faculdade), ainda se acredita que jornalista é um bicho feito para trabalhar doze horas por dia. Feito para sacrificar sono, fome, relógio biológico e, principalmente, vida social, em nome da falácia idiota de que “notícia não tem hora para acontecer”. Somente no cérebro ganancioso de um editor ou dono de jornal mau-caráter esse tipo de balela serve como justificativa para ignorar qualquer direito trabalhista ou qualquer respeito a uma existência digna.

A minha mais triste constatação é que este não é o único exemplo em que o jornalismo torna-se vítima dos próprios sonhos que alimenta. Uma amiga tentou publicar um artigo como freelancer em um jornal de grande circulação daqui de São Paulo. O editor acolheu o texto com dezenas de elogios. Dinheiro, porém, nada. Segundo a crença do editor, o repórter deveria abdicar da remuneração em troca da suposta honra de ver seu nome publicado no prestigioso veículo – que, às beiras da bancarrota, de prestigioso tem cada vez menos.

Trata-se de um caso isolado, mas minha recente demissão me incutiu a certeza de que a exceção, em breve, há de se tornar a regra. Especialmente no que se refere ao jornalismo cultural, um gênero que arrebanha mais e mais desavisados nas faculdades de comunicação. Já pululam por aí centenas de revistas como o Rabisco, única válvula de escape para uma geração que não tem como ser absorvida pelo mercado. A julgar pelo andar da carruagem, em breve minha profissão será isso mesmo que é o Rabisco: um hobby, mantido a duras penas por um outro emprego “sério” e menos prazeroso.

Esse emprego, possivelmente, será uma assessoria de imprensa qualquer – o único setor que ainda emprega minha gente. Não me deixa de parecer um tanto emblemático dos interesses da nossa sociedade atual: há trabalho para se fabricar notícia, mas não para apurá-la. Ninguém quer a verdade; o que todo mundo quer é um acordo tácito marqueteiro que possa simular a idéia de comunicação.

A divagação vai longe. Não há uma única pessoa entre meus ex-colegas de faculdade que escolheu jornalismo porque tinha um passional desejo de atuar como assessor de imprensa. E, no entanto, destes meus 25 colegas, 7 responderam ao meu email em busca de uma nova oportunidade de emprego com um solidário: “é, também estou desempregado”. Seremos todos assessores frustrados? Jornalistas de fim de semana e de blogs casuais? Não sei, mas este dia funesto do meu, encerro aqui.


Em tempo: tenho recebido muitos emails lamentando a consecutiva ausência da coluna Boteco, assinada pelo meu amigo Leopoldo Godoy. Também sinto falta do espaço. Léo, porém, anda afastado por motivos de saúde. Vamos torcer para que o quadro dele se estabilize e a gente possa voltar a se deliciar com sua conversa de bar.