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RECENTEMENTE #44
A SEGUNDA IMPRESSÃO É
A QUE FICA
Já imaginou Val Kilmer como
Neo? Tom Selleck como Indiana Jones? Nick Nolte como Han Solo? Pois
poderia ter acontecido...
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

tema da edição é Matrix,
então vamos continuar com ele. Imagine-se de volta a 1999,
pronto para assistir à ficção científica
dos irmãos Wachowski. Você entra no cinema com seus
amigos, compra pipoca, senta na poltrona e o filme começa.
Na tela, Neo é interpretado por um ator bonito, que já
fez sucesso no passado como jovem galã e nunca ganhou o devido
reconhecimento... Val Kilmer.
Não, as máquinas não se rebelaram
e colocaram a humanidade em uma realidade paralela secretamente
construída. O hoje decadente Kilmer foi mesmo uma das primeiras
opções dos Wachowski para seu longa-metragem. Nada
fora do comum: até então, ninguém realmente
“grande” em Hollywood dava bola para a dupla. Eles eram
dois desconhecidos com um filme maluco sobre um futuro dark e ilusório.
“Era um conceito muito difícil de vender”, justificou,
arrependido, anos depois, Will Smith, que também recusou
papel no que viria se tornar o maior sucesso daquela temporada.
Ele ignorou Morpheus para atuar na bomba As Loucas Aventuras
de James West. (Mais sorte teve sua esposa, Jada-Pinkett, que
acabou conseguindo uma boquinha nas continuações Matrix
Reloaded e Matrix Revolutions).
Histórias como a de Kilmer e Smith existem
às pencas nos bastidores de Hollywood. Qualquer ator com
uma carreira razoavelmente longa já desprezou uma proposta
e depois arrependeu-se até o último fio de cabelo
– e também esteve do outro lado da moeda, “herdando”
projetos passados adiante. O próprio Kilmer, por exemplo,
teve a honra de se tornar o homem-morcego em Batman Eternamente,
depois que Michael Keaton recusou-se a participar sem o diretor
dos dois filmes anteriores, Tim Burton. A entrada de Kilmer revolucionou
todo o casting da produção. O elenco original havia
sido escolhido a partir da compatibilidade de idade com Keaton.
A psicóloga Chase Meridien, vivida por Nicole Kidman, na
verdade seria interpretada por outra loira gelada, a ótima
Rene Russo, de Máquina Mortífera 3. E o Charada
seria o primeiro vilão na galeria de personagens de Robin
Williams. Depois, os produtores consideraram Jim Carrey uma opção
mais jovial.
Se você deu risada tentando remontar Batman
Eternamente com este elenco que nunca se concretizou, há
outros exercícios de imaginação que você
pode arriscar. Por exemplo: vislumbre Nick Nolte, quase trinta anos
mais novo, empunhando um sabre de luz. O astro de O Príncipe
das Marés era a escolha original de George Lucas para
viver o comandante espacial Han Solo na primeira trilogia Star Wars.
Aliás, Harrison Ford, que acabou ficando com o papel, pode
se considerar um homem de sorte: sua outra trilogia mais famosa,
Indiana Jones, era para ser estrelada por Tom Selleck –
na época, um nome digno de marquise, por causa da série
Magnum (lembra?). Desde então, o bigodudo só
fez Três Solteirões e um Bebê.
Há
casos em que a troca de atores ocorre não por falta de sabedoria
dos astros, mas por intervenções externas. Acredite
ou não, Mel Gibson nunca quis estrelar Coração
Valente. Achava-se velho demais e preferia Jason Patric (Narc)
no papel. O estúdio que produziu o épico, porém,
se recusou a emprestar tanto dinheiro para um filme com um ator
tão desconhecido. Gibson acabou cedendo. Já no que
se refere ao azarado Dougray Scott (Para Sempre Cinderella),
o que acabou com sua carreira foram os atrasos nas filmagens de
Missão Impossível 2, no qual fazia o vilão.
Isto o impediu de se tornar Wolverine em X-Men –
personagem que havia ganho no talento. O segundo colocado nas audições,
o então anônimo Hugh Jackman, se deu bem e hoje é
infinitamente mais conhecido que Scott. (Em tempo: a escolha original
do diretor Bryan Singer para o mutante nervosinho era... Russell
Crowe!)
A lista de troca-troca entre atrizes no banco de
reservas também é imensa. Sandra Bullock, por exemplo,
substituiu Demi Moore em Enquanto Você Dormia. Moore,
por sua vez, quase experimentou what a feeling! como a
soldadora dançarina de Flashdance (reza a lenda
que os produtores não conseguiam se decidir entre ela, Jennifer
Beals e uma terceira atriz; então, reuniram 50 homens e perguntaram
a eles com quem mais gostariam de ir para a cama. Biels ganhou por
pouco). Ainda em se tratando de divas com papéis cheio de
gingado, Charlize Theron (Doce Novembro) quase se queimou
mostrando os peitos em Showgirls. Mais bizarro ainda: um
pulso quebrado impediu Cameron Diaz de chutar a bunda de alguns
ninjas em Mortal Kombat! Bridgette Wilson entrou em seu
lugar como a lutadora Sonya Blade.
Há
também certos deslizes que se mostram benéficos a
longo prazo. Quando Velocidade Máxima provou-se
um dos maiores blockbusters de 1994, Halle Berry, que havia rejeitado
o papel que acabou sobrando para Sandra Bullock, subiu pelas paredes.
Naquele árduo início de carreira, ela bem que precisava
do empurrãozinho que o filme havia dado à futura Miss
Simpatia. Caso tivesse mesmo aceitado o papel, talvez atualmente
estaria presa no limbo das comédias românticas, como
Bullock, sem um Oscar na lareira. Tá vendo só? Isso
é bom para aprendermos a lição e colocarmos
em perspectiva todas aquelas burradas que cometemos de vez em quando
na nossa carreira. Se até os hollywoodianos podem, nós
também...
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