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RECENTEMENTE #53
VEM AÍ...
A febre por baixar filmes na web
é sintoma de um fetiche que o próprio showbusiness
difundiu
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
a miopia imediatista que lhe é típica, diante de todo
o espectro temático que a ascensão da pirataria oferece,
a imprensa tem se focado quase que exclusivamente em alguma valoração
moral rasa – é certo ou não copiar músicas
e filmes na rede? Perde-se de vista outros aspectos cujo debate,
aí sim, poderiam trazer repercussões duradouras. A
mim, que não paro para comprar DVD em banca de rua, só
me fascina enxergar a pirataria como uma espécie de câncer
a carcomer o organismo capitalista. Como tal, surge naturalmente
de sua vítima e guarda, com ela, semelhanças fúnebres.
Meu computador pessoal é podre demais para baixar um longa-metragem.
Mas tenho dois colegas, um de trabalho e outro da faculdade, cujo
comportamento bucaneiro é sintomático e merece análise.
Diariamente, um deles me passa uma dezena de títulos em inglês
que encontra nos sites voltados ao tal DivX. Minha função,
como assessor cinéfilo, é oferecer os respectivos
títulos em português e avaliar quais parecem “valer
a pena” (algo do tipo: “ah, esse é com o Harrison
Ford... esse abriu em primeiro nos EUA...” e outros critérios
ainda mais questionáveis, claro). Enquanto isso, a namorada
do outro me confidencia que já está usando como porta-copos
as centenas (sim, centenas) de discos “queimados” pelo
cônjuge.
Eu simplesmente não entendo essa pirataria varejista. Me
parece uma síndrome infantilóide do “tudo ver”,
sem nenhum parâmetro. Portanto, sem paixão. Portanto,
sem justificativa. Não é como um fã de Larry
Clark possesso porque Bully ou Ken Park
nunca vieram para o Brasil. Ou um nacionalista inconformado porque
LavourArcaica, dois anos depois de entrar em
cartaz, não tem vistas de chegar às locadoras.
A solução para a charada está numa suposta
honra corsária. Quando meu colega de trabalho se gaba de
que viu, há duas semanas, um filme que estréia nesta
sexta, tudo fica claro para mim. Os piratas da estirpe cinematográfica
são só monstros que a própria indústria
criou. Uma indústria que, veja só, desde o advento
da mesma internet que hoje a apunhala pelas costas, tratou de difundir
o “fetiche da antecipação”.
Foi uma jogada de marketing decisiva, que moldou o mercado como
o conhecemos. Figurões de Hollywood sacaram o que a psicanálise
já dizia: a adolescência é a fase em que estamos
a desenvolver o artifício egóico conhecido como “adiamento
do prazer”, necessária à inserção
na vida adulta. Portanto, se você quer fisgar esta lucrativa
parcela do público, é preciso oferecer-lhe tentações
que são inalcançáveis – por ora. Surgiu,
assim, o prefixo autoexplicativo que hoje comanda o sétimo
showbusiness: “teaser” (do verbo “provocar”,
em inglês).
Os blockbusters, que antes tinham um único trailer e olhe
lá, ganharam dois ou três “teaser-trailers”.
Em seguida, passaram a ser anunciados por enigmáticos “teaser-pôsteres”.
E, esses dias, eu dei a notícia da estréia de um “teaser-site”
– que não continha nada, só o nome oficial do
filme, uma arte chinfrim e a opção de se inscrever
em uma newsletter. Caí feito um patinho: minha notícia
tinha virado uma teaser-notícia.
A epidemia só faz sentido no mundo virtual, que pode abrigar
mais sessões de trailers, por exemplo, do que todas as salas
de cinema do mundo juntas. Mas há sinais de contágio
do lado de cá da Matrix. As pré-estréias nunca
estiveram tão em voga, por exemplo. Pré-vendas de
DVD, idem. Disputadíssimas. Com a consolidação
da produção nacional, devem chegar por aqui as exibições-testes,
cujos convites, imagino, também serão troféus
para ginasiais se gabando aos coleguinhas.
Minha profissão não passa longe. Acomodado
e em crise, o crítico ganhou uma definição
que acho cruel mas real: “é apenas alguém que
viu o filme antes”, segundo Eduardo Valente, editor da ContraCampo.
E não duvido que isto representa boa parte do fascínio
que o cargo exerce sobre as dezenas de aspirantes a ele. Vocês
nem imaginam quantas pessoas pleitearam os ingressos do Rabisco
à cabine para a imprensa de X-Men 2.
Comecei falando de pirataria e terminei ampliando o foco. O objetivo,
contudo, era esse mesmo: há mais por trás deste fenômeno
que atormenta as megacorporações de entretenimento
do que elas mesmas (e a imprensa) andam averiguando. Especialmente
no que diz respeito à pirataria de filmes, que tem suas especificidades
– não acredito que as justificativas acima cabem à
cópia de músicas, que aparenta ser correlata da falência
do “álbum” como veículo para esta arte
– mas pouco debate. O assunto, porém, vai longe e eu
mesmo me vejo infectado: acho que esta coluna, na verdade, foi só
uma “teaser-coluna”... Aguarde!
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