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17 a 30 de novembro de 2003


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RECENTEMENTE #53

VEM AÍ...
A febre por baixar filmes na web é sintoma de um fetiche que o próprio showbusiness difundiu

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

a miopia imediatista que lhe é típica, diante de todo o espectro temático que a ascensão da pirataria oferece, a imprensa tem se focado quase que exclusivamente em alguma valoração moral rasa – é certo ou não copiar músicas e filmes na rede? Perde-se de vista outros aspectos cujo debate, aí sim, poderiam trazer repercussões duradouras. A mim, que não paro para comprar DVD em banca de rua, só me fascina enxergar a pirataria como uma espécie de câncer a carcomer o organismo capitalista. Como tal, surge naturalmente de sua vítima e guarda, com ela, semelhanças fúnebres.

Meu computador pessoal é podre demais para baixar um longa-metragem. Mas tenho dois colegas, um de trabalho e outro da faculdade, cujo comportamento bucaneiro é sintomático e merece análise. Diariamente, um deles me passa uma dezena de títulos em inglês que encontra nos sites voltados ao tal DivX. Minha função, como assessor cinéfilo, é oferecer os respectivos títulos em português e avaliar quais parecem “valer a pena” (algo do tipo: “ah, esse é com o Harrison Ford... esse abriu em primeiro nos EUA...” e outros critérios ainda mais questionáveis, claro). Enquanto isso, a namorada do outro me confidencia que já está usando como porta-copos as centenas (sim, centenas) de discos “queimados” pelo cônjuge.

Eu simplesmente não entendo essa pirataria varejista. Me parece uma síndrome infantilóide do “tudo ver”, sem nenhum parâmetro. Portanto, sem paixão. Portanto, sem justificativa. Não é como um fã de Larry Clark possesso porque Bully ou Ken Park nunca vieram para o Brasil. Ou um nacionalista inconformado porque LavourArcaica, dois anos depois de entrar em cartaz, não tem vistas de chegar às locadoras.

A solução para a charada está numa suposta honra corsária. Quando meu colega de trabalho se gaba de que viu, há duas semanas, um filme que estréia nesta sexta, tudo fica claro para mim. Os piratas da estirpe cinematográfica são só monstros que a própria indústria criou. Uma indústria que, veja só, desde o advento da mesma internet que hoje a apunhala pelas costas, tratou de difundir o “fetiche da antecipação”.

Foi uma jogada de marketing decisiva, que moldou o mercado como o conhecemos. Figurões de Hollywood sacaram o que a psicanálise já dizia: a adolescência é a fase em que estamos a desenvolver o artifício egóico conhecido como “adiamento do prazer”, necessária à inserção na vida adulta. Portanto, se você quer fisgar esta lucrativa parcela do público, é preciso oferecer-lhe tentações que são inalcançáveis – por ora. Surgiu, assim, o prefixo autoexplicativo que hoje comanda o sétimo showbusiness: “teaser” (do verbo “provocar”, em inglês).

Os blockbusters, que antes tinham um único trailer e olhe lá, ganharam dois ou três “teaser-trailers”. Em seguida, passaram a ser anunciados por enigmáticos “teaser-pôsteres”. E, esses dias, eu dei a notícia da estréia de um “teaser-site” – que não continha nada, só o nome oficial do filme, uma arte chinfrim e a opção de se inscrever em uma newsletter. Caí feito um patinho: minha notícia tinha virado uma teaser-notícia.

A epidemia só faz sentido no mundo virtual, que pode abrigar mais sessões de trailers, por exemplo, do que todas as salas de cinema do mundo juntas. Mas há sinais de contágio do lado de cá da Matrix. As pré-estréias nunca estiveram tão em voga, por exemplo. Pré-vendas de DVD, idem. Disputadíssimas. Com a consolidação da produção nacional, devem chegar por aqui as exibições-testes, cujos convites, imagino, também serão troféus para ginasiais se gabando aos coleguinhas.

Minha profissão não passa longe. Acomodado e em crise, o crítico ganhou uma definição que acho cruel mas real: “é apenas alguém que viu o filme antes”, segundo Eduardo Valente, editor da ContraCampo. E não duvido que isto representa boa parte do fascínio que o cargo exerce sobre as dezenas de aspirantes a ele. Vocês nem imaginam quantas pessoas pleitearam os ingressos do Rabisco à cabine para a imprensa de X-Men 2.

Comecei falando de pirataria e terminei ampliando o foco. O objetivo, contudo, era esse mesmo: há mais por trás deste fenômeno que atormenta as megacorporações de entretenimento do que elas mesmas (e a imprensa) andam averiguando. Especialmente no que diz respeito à pirataria de filmes, que tem suas especificidades – não acredito que as justificativas acima cabem à cópia de músicas, que aparenta ser correlata da falência do “álbum” como veículo para esta arte – mas pouco debate. O assunto, porém, vai longe e eu mesmo me vejo infectado: acho que esta coluna, na verdade, foi só uma “teaser-coluna”... Aguarde!