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22/12/2003 a 3/1/2004


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RECENTEMENTE #55

O MUNDO (DO CINEMA) É PINK?
As confusões do subtexto gay em filmes como Ben-Hur, O Senhor dos Anéis e Sociedade dos Poetas Mortos

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

 função da crítica cinematográfica é ir sempre além dos limites do filme. É a tal “falácia da criação”: uma obra nunca é tudo aquilo que seu autor diz que é, nem só aquilo que ele acredita que seja. A brincadeira fica um pouco mais complicada quando se trata de ler nas entrelinhas (ou ver nas entrecenas) referências a tabus como, por exemplo, a homossexualidade.

O russo Aleksander Sokúrov foi a sensação da Mostra de Cinema de SP no ano passado. Assinou o belo cartaz do evento, ganhou retrospectiva e encantou o público com Arca Russa. Em 2003, colaborou apenas com Pai e Filho, que, confesso, foi umas das experiências mais perturbadoras que já tive dentro de uma sala de projeção. Até tentei escrever algo para o Rabisco, mas fui forçado a admitir que não tinha o escopo crítico necessário.

Me senti aliviado, porém, quando li análises de colegas e percebi que não havia sido o único a notar um tom altamente erótico e incestuoso entre os dois personagens do título. Aliás, fosse atrasado três semanas, Pai e Filho poderia entrar na programação do Festival Mix Brasil. Os dois atores são lindos, aparecem ora sem camisa, ora fardados, e adoram exercitar os músculos em cena. Compartilham diálogos cara a cara, com poucos centímetros a separar suas bocas. Eu fiquei a sessão inteira tentando justificar para mim mesmo que, sim, eles eram amantes e, não, eles não eram parentes. Depois, o inverso.

Dizem que Sokúrov teve surtos de raiva quando críticos em Cannes apontaram
a homossexualidade latente do filme. Alegou que só mentes sujas poderiam conspurcar a pureza de uma relação paternal. Acho que a carapuça me serviu. Tenho um amigo que diz que, em certo ponto, todo gay começa a acreditar piamente no proverbial “o mundo é pink”. Às vezes, tenho medo de que já atingi esse estágio e de que ele está afetando meu julgamento crítico.

Por exemplo: algum nerd de plantão poderia me dizer se o livro de Tolkien de fato realçava a conotação gay que Peter Jackson está aplicando em Frodo e Sam na trilogia O Senhor dos Anéis? Outro: mais alguém aí reviu Sociedade dos Poetas Mortos recentemente? Não parece claro que os personagens de Etan Hawke e Robert Sean Leonard se descobrem apaixonados um pelo outro? É uma interpretação que subverte totalmente o desfecho do drama.

Não é de hoje que as sutilezas dão margens para debates acalorados e enganos no mínimo cômicos. Reza a lenda que, quando preparavam Ben-Hur, os roteiristas não queriam deixar de lado a bissexualidade comum no Império Romano. Conservador e muito esperto, o diretor preferiu não arriscar-se a perder o machão Charlton Heston. Assegurou aos colegas de equipe que conversaria com o ator sobre o assunto, mas nunca o fez. Até hoje, o rival de Ben-Hur na famosa disputa da arena lança-lhe olhares lânguidos, que o incauto Heston responde, involuntariamente hilário, com caretas furiosas.

No extremo oposto, há quem se submeta diretamente à percepção do público. Depois de cinco temporadas, fãs de Buffy, a Caça-Vampiros notaram uma potencial lésbica na bruxinha Willow, prontamente expulsa do armário à fórceps pelos produtores.

Talvez seja um sinal dos tempos – não apenas a derrocada do preconceito, mas a expropriação interpretativa de qualquer obra, não mais pertencente ao autor, mas aos fãs (ou, ainda melhor, aos fanáticos). O mundo pode ser parcialmente rosado para mim, mas negro para você, verde para o seu colega e azul para sua namorada. A queda de um tabu, porém, representa a ascensão de outro: pena que gente como Sokurov tema ainda mais a falácia da criação do que a própria homossexualidade.