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RECENTEMENTE #55
O MUNDO (DO CINEMA) É PINK?
As confusões do subtexto gay
em filmes como Ben-Hur, O Senhor dos Anéis
e Sociedade dos Poetas Mortos
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
função da crítica cinematográfica
é ir sempre além dos limites do filme. É a
tal “falácia da criação”: uma obra
nunca é tudo aquilo que seu autor diz que é, nem só
aquilo que ele acredita que seja. A brincadeira fica um pouco mais
complicada quando se trata de ler nas entrelinhas (ou ver nas entrecenas)
referências a tabus como, por exemplo, a homossexualidade.
O russo Aleksander Sokúrov foi a sensação
da Mostra de Cinema de SP no ano passado. Assinou o belo cartaz
do evento, ganhou retrospectiva e encantou o público com
Arca Russa. Em 2003, colaborou apenas com Pai
e Filho, que, confesso, foi umas das experiências
mais perturbadoras que já tive dentro de uma sala de projeção.
Até tentei escrever algo para o Rabisco,
mas fui forçado a admitir que não tinha o escopo crítico
necessário.
Me senti aliviado, porém, quando li análises de colegas
e percebi que não havia sido o único a notar um tom
altamente erótico e incestuoso entre os dois personagens
do título. Aliás, fosse atrasado três semanas,
Pai e Filho poderia entrar na programação
do Festival Mix Brasil. Os dois atores são lindos, aparecem
ora sem camisa, ora fardados, e adoram exercitar os músculos
em cena. Compartilham diálogos cara a cara, com poucos centímetros
a separar suas bocas. Eu fiquei a sessão inteira tentando
justificar para mim mesmo que, sim, eles eram amantes e, não,
eles não eram parentes. Depois, o inverso.
Dizem que Sokúrov teve surtos de raiva quando críticos
em Cannes apontaram
a homossexualidade latente do filme. Alegou que só mentes
sujas poderiam conspurcar a pureza de uma relação
paternal. Acho que a carapuça me serviu. Tenho um amigo que
diz que, em certo ponto, todo gay começa a acreditar piamente
no proverbial “o mundo é pink”. Às vezes,
tenho medo de que já atingi esse estágio e de que
ele está afetando meu julgamento crítico.
Por exemplo: algum nerd de plantão poderia me dizer se o
livro de Tolkien de fato realçava a conotação
gay que Peter Jackson está aplicando em Frodo e Sam na trilogia
O Senhor dos Anéis? Outro: mais alguém
aí reviu Sociedade dos Poetas Mortos recentemente?
Não parece claro que os personagens de Etan Hawke e Robert
Sean Leonard se descobrem apaixonados um pelo outro? É uma
interpretação que subverte totalmente o desfecho do
drama.
Não é de hoje que as sutilezas dão margens
para debates acalorados e enganos no mínimo cômicos.
Reza a lenda que, quando preparavam Ben-Hur,
os roteiristas não queriam deixar de lado a bissexualidade
comum no Império Romano. Conservador e muito esperto, o diretor
preferiu não arriscar-se a perder o machão Charlton
Heston. Assegurou aos colegas de equipe que conversaria com o ator
sobre o assunto, mas nunca o fez. Até hoje, o rival de Ben-Hur
na famosa disputa da arena lança-lhe olhares lânguidos,
que o incauto Heston responde, involuntariamente hilário,
com caretas furiosas.
No extremo oposto, há quem se submeta diretamente à
percepção do público. Depois de cinco temporadas,
fãs de Buffy, a Caça-Vampiros
notaram uma potencial lésbica na bruxinha Willow, prontamente
expulsa do armário à fórceps pelos produtores.
Talvez seja um sinal dos tempos – não apenas a derrocada
do preconceito, mas a expropriação interpretativa
de qualquer obra, não mais pertencente ao autor, mas aos
fãs (ou, ainda melhor, aos fanáticos). O mundo pode
ser parcialmente rosado para mim, mas negro para você, verde
para o seu colega e azul para sua namorada. A queda de um tabu,
porém, representa a ascensão de outro: pena que gente
como Sokurov tema ainda mais a falácia da criação
do que a própria homossexualidade.
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