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9 a 22 de fevereiro de 2004

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RECENTEMENTE #57

O ABSURDO DOS MORCEGOS
Improbabilidades da guerra: a história real de morcegos que carregaram bombas em prol do exército americano

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

sta história, anedota, paródia ou seja lá como você quiser chamá-la, é verídica.

Dizem que a humanidade nunca conseguiu se livrar das guerras, nem nunca conseguirá, porque são elas que impulsionam o nosso instinto inventivo. A sobrevivência exige a imprudência da criatividade, do espírito empreendedor. Em muitos casos, esse benefícios se estendem sobre o armistício. Mas a maioria não encontra viabilidade prática e mal se registra nos anais bélicos, quiçá na história mundial. Uma pena.

Franzino e encurvado, Lytle Adams chegou a uma pequena base militar do Texas exibindo, com o constrangimento adequado de um civil, uma carta de recomendação assinado pelo punho do próprio Presidente dos EUA. A carta ditava uma nova patente naquela comunidade isolada. Ironicamente, apressava-se em atestar logo na primeira linha, sem qualquer decoro convencional: “Este homem não é louco”.

O zootécnico Adams passaria a comandar um contingente de 200 homens em uma improvável estratégia alternativa de guerra. Muito, muito, muito alternativa: o plano, concebido por ele mesmo, consistia em capturar milhões de morcegos e treiná-los como pombos-correios, carregando bombas incendiárias que seriam liberadas sobre o território inimigo. Os jovens recrutas da base lutaram para esconder o riso encurvado no canto da boca quando souberam dos detalhes. Mas a guerra tudo sancionava: tempos desesperados exigiam medidas desesperadas.

Adams escorava sua idéia em quatro aspectos biológicos dos morcegos: a abundância de espécimens; o instinto de carregarem a cria próximo ao corpo em pleno vôo; a capacidade de hibernação, e, portanto, a exigência de poucos cuidados; e o hábito de voarem à noite e se esconderem de dia, em locais obscuros. Detalhadamente, seu plano previa conteineres em baixa temperatura, onde as criaturas aladas dormiriam, amarradas individualmente a explosivos do tamanho de um dedão humano. A carga seria levada em aviões e, pouco antes de serem despejadas, seriam aquecidas. Quando chegassem ao chão, os morcegos libertos fugiriam para edifícios estratégicos e, como Dráculas camicases tresloucados, explodiriam a si mesmos.

A Inteligência Militar americana nunca parecera tão indigna do próprio nome – nem mesmo quando, por engano, batizou o projeto de “Raio X”, ao invés de “Radar”. O título virou piada: eles mesmos não enxergavam o absurdo evidente. Mas, mesmo assim, por 27 meses aquela pequena base do Texas viu sua rotina radicalmente alterada. Entre um e outro treino de tiro, os recrutas eram obrigados a rondar cavernas próximas com telas gigantes para aprisionarem seus arautos da morte. Enquanto isso, os cientistas manufaturavam os contêineres e as bombas.

O primeiro teste prático, contudo, e para decepção de Adams, foi o desastre anunciado. A imprensa fez questão de ver os animais em ação. Só que dois ou três fujões, acordados do torpor pelo inclemente sol texano, acabaram se refugiando nas imediações. Com bombas reais. Em questão de minutos, uma caserna e uma torre de vigilância explodiram como que em combustão espontânea. Os ratos alados haviam feito o que nenhum outro inimigo americano conseguira.

Em mais uma inexplicável ironia – e a indústria bélica dos EUA parece pródiga delas –, a catástrofe ao menos servira para comprovar que a tática funcionava. Cerca de US$ 2 bilhões continuaram sendo investidos no Projeto Raio X. Até que um dia, sem explicação, dois representantes do governo vieram e fecharam a base, desmantelando a organização. Adams, que havia redescoberto seu orgulho próprio nos últimos dois anos, descobriu-se não mais necessário. Não sabia porquê. Encurvou o ombros e passou a esvaziar seu modesto escritório. Retirou da parede um enorme mapa, com quatro ilhas em meia-lua e um círculo vermelho na costa litorânea que delimitava seu alvo: as cidades industriais de Kobe e Kyoto.

Poucas semanas mais tarde, em sua vidinha civil, Adams entendeu tudo. A TV lhe mostrou um enorme cogumelo de fumaça e calor sobre os vilarejos de Hiroshima e Nagasaki. Era a Segunda Guerra Mundial. Ou o que restava dela. O poder destrutivo daquelas bombas jamais seriam alcançados por nenhum dos (ou todos os) seus queridos morcegos. Milhões de pessoas morreram instantaneamente, como se sequer, algum dia, tivessem existido. Onde havia casas, ruas, famílias e amigos, sobrara apenas um deserto de radiação. A mesma radiação, soube-se depois, consumiu civis inocentes por anos e anos, numa herança genética mortífera. Foi a ferida mais evidente daquele conflito mundial, e latejou, aberta, muito tempo depois que todo o resto já houvesse sarado.

Naquela mesma tarde, Adams havia visto os morcegos do Projeto Raio X serem devolvidos à natureza. Ele se limitara a chorar uma lágrima de despedida. E ali, mesmerizado diante da TV, se reencontrou com a centelha de sua humanidade. “E ainda diziam que a minha idéia é que era absurda”, sussurrou, baixinho.