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#57
O ABSURDO DOS MORCEGOS
Improbabilidades da guerra:
a história real de morcegos que carregaram bombas
em prol do exército americano
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
sta história, anedota, paródia ou seja
lá como você quiser chamá-la, é
verídica.
Dizem que a humanidade nunca conseguiu se livrar das
guerras, nem nunca conseguirá, porque são
elas que impulsionam o nosso instinto inventivo. A sobrevivência
exige a imprudência da criatividade, do espírito
empreendedor. Em muitos casos, esse benefícios
se estendem sobre o armistício. Mas a maioria
não encontra viabilidade prática e mal
se registra nos anais bélicos, quiçá
na história mundial. Uma pena.
Franzino e encurvado, Lytle Adams chegou a uma pequena
base militar do Texas exibindo, com o constrangimento
adequado de um civil, uma carta de recomendação
assinado pelo punho do próprio Presidente dos
EUA. A carta ditava uma nova patente naquela comunidade
isolada. Ironicamente, apressava-se em atestar logo
na primeira linha, sem qualquer decoro convencional:
“Este homem não é louco”.
O zootécnico Adams passaria a comandar um contingente
de 200 homens em uma improvável estratégia
alternativa de guerra. Muito, muito, muito alternativa:
o plano, concebido por ele mesmo, consistia em capturar
milhões de morcegos e treiná-los como
pombos-correios, carregando bombas incendiárias
que seriam liberadas sobre o território inimigo.
Os jovens recrutas da base lutaram para esconder o riso
encurvado no canto da boca quando souberam dos detalhes.
Mas a guerra tudo sancionava: tempos desesperados exigiam
medidas desesperadas.
Adams escorava sua idéia em quatro aspectos
biológicos dos morcegos: a abundância de
espécimens; o instinto de carregarem a cria próximo
ao corpo em pleno vôo; a capacidade de hibernação,
e, portanto, a exigência de poucos cuidados; e
o hábito de voarem à noite e se esconderem
de dia, em locais obscuros. Detalhadamente, seu plano
previa conteineres em baixa temperatura, onde as criaturas
aladas dormiriam, amarradas individualmente a explosivos
do tamanho de um dedão humano. A carga seria
levada em aviões e, pouco antes de serem despejadas,
seriam aquecidas. Quando chegassem ao chão, os
morcegos libertos fugiriam para edifícios estratégicos
e, como Dráculas camicases tresloucados, explodiriam
a si mesmos.
A Inteligência Militar americana nunca parecera
tão indigna do próprio nome – nem
mesmo quando, por engano, batizou o projeto de “Raio
X”, ao invés de “Radar”. O
título virou piada: eles mesmos não enxergavam
o absurdo evidente. Mas, mesmo assim, por 27 meses aquela
pequena base do Texas viu sua rotina radicalmente alterada.
Entre um e outro treino de tiro, os recrutas eram obrigados
a rondar cavernas próximas com telas gigantes
para aprisionarem seus arautos da morte. Enquanto isso,
os cientistas manufaturavam os contêineres e as
bombas.
O primeiro teste prático, contudo, e para decepção
de Adams, foi o desastre anunciado. A imprensa fez questão
de ver os animais em ação. Só que
dois ou três fujões, acordados do torpor
pelo inclemente sol texano, acabaram se refugiando nas
imediações. Com bombas reais. Em questão
de minutos, uma caserna e uma torre de vigilância
explodiram como que em combustão espontânea.
Os ratos alados haviam feito o que nenhum outro inimigo
americano conseguira.
Em mais uma inexplicável ironia – e a
indústria bélica dos EUA parece pródiga
delas –, a catástrofe ao menos servira
para comprovar que a tática funcionava. Cerca
de US$ 2 bilhões continuaram sendo investidos
no Projeto Raio X. Até que um dia, sem explicação,
dois representantes do governo vieram e fecharam a base,
desmantelando a organização. Adams, que
havia redescoberto seu orgulho próprio nos últimos
dois anos, descobriu-se não mais necessário.
Não sabia porquê. Encurvou o ombros e passou
a esvaziar seu modesto escritório. Retirou da
parede um enorme mapa, com quatro ilhas em meia-lua
e um círculo vermelho na costa litorânea
que delimitava seu alvo: as cidades industriais de Kobe
e Kyoto.
Poucas semanas mais tarde, em sua vidinha civil, Adams
entendeu tudo. A TV lhe mostrou um enorme cogumelo de
fumaça e calor sobre os vilarejos de Hiroshima
e Nagasaki. Era a Segunda Guerra Mundial. Ou o que restava
dela. O poder destrutivo daquelas bombas jamais seriam
alcançados por nenhum dos (ou todos os) seus
queridos morcegos. Milhões de pessoas morreram
instantaneamente, como se sequer, algum dia, tivessem
existido. Onde havia casas, ruas, famílias e
amigos, sobrara apenas um deserto de radiação.
A mesma radiação, soube-se depois, consumiu
civis inocentes por anos e anos, numa herança
genética mortífera. Foi a ferida mais
evidente daquele conflito mundial, e latejou, aberta,
muito tempo depois que todo o resto já houvesse
sarado.
Naquela mesma tarde, Adams havia visto os morcegos
do Projeto Raio X serem devolvidos à natureza.
Ele se limitara a chorar uma lágrima de despedida.
E ali, mesmerizado diante da TV, se reencontrou com
a centelha de sua humanidade. “E ainda diziam
que a minha idéia é que era absurda”,
sussurrou, baixinho. 
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