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25 de julho a 8 de agosto de 2004 Equipe Edições Anteriores

RECENTEMENTE #65

A ACLAMAÇÃO DO HERÓI
Uma cena primordial de Homem-Aranha 2 ajuda a explicar porque tanta gente gosta tanto desse loser mascarado

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

á assisti a Homem-Aranha 2 duas vezes e ainda não consegui me decidir se o filme é superior ao original. Já aprecio, no entanto, a satisfação de que as cenas da continuação que mais me chamam a atenção não são de ação. Uma delas, em particular: aquela em que o combalido herói é resgatado depois de impedir um desastre ferroviário. As vítimas descobrem sua identidade e tentam protegê-lo quando o vilão Dr. Octopus vem buscá-lo. É a imagem especular de um trecho do primeiro filme, aquele em que o Duende Verde só não derruba o Homem-Aranha da ponte do Brooklyn, onde ele procura salvar a namorada e um bonde defeituoso, porque transeuntes jogam pedras no vilão. “Mexeu com o Homem-Aranha, mexeu com Nova York”, grita um dos revoltosos. À época, parecia só uma bravata necessária para reconhecer e amainar o trauma da queda do WTC. Mas, em Homem-Aranha 2 , a cena, praticamente uma sucessão da original, com os mesmos tipos, revela-se talvez a chave primordial para se compreender o sucesso do filme, do gibi e do personagem.

O argumento mais comumente empregado para justificar tal fenôneno é a projeção identitária que Homem-Aranha é capaz de promover, sem par entre seus colegas uniformizados. Ele é, afinal, “um herói com problemas pessoais, como qualquer um”, ou seja lá como a crítica repetiu acriticamente no último mês. Não me é o suficiente. Seu criador, Stan Lee, foi mestre em bolar heróis tridimensionais, com preocupações mundanas. Na própria década de 1960, o gibi que mais rivalizava com Homem-Aranha dentro da Marvel era do Quarteto Fantástico, aventureiros que nada mais eram do que uma família – com todas as idiossincrasias que uma família morando sob o mesmo teto possui. Tempos depois surgiu êxito ainda maior, os X-Men, heróis que eram na verdade estudantes ginasiais – para não mencionar adolescentes marginalizados e inseguros.

A diferença entre Peter Parker e ambos os grupos é que a ele lhe foi negado a essência que caracteriza o verdadeiro herói: sua aclamação pública como tal. A releitura medieval sobre clássicos da Antigüidade como Odisséia e Ilíada , que fundamentaram o arquétipo heróico, associa sua condição ao alinhamento moral – daí tem-se o Bem e o Mal, o herói necessariamente como antítese do vilão. Na sua origem, porém, o herói homérico nada mais era do que alguém capaz de realizar grandes proezas. Antagonizado pelas circunstâncias, era por elas consagrado. O herói só havia razão de ser quando destacado dentre os homens comuns, imortalizado na opinião pública, na literatura popular. Não me estranha que a imagem cristalizada da Era de Ouro dos quadrinhos, na ressaca da Grande Depressão, é a dos habitantes de Metrópolis sempre olhando para cima: é um pássaro? É um avião? Não, é a aclamação de um novo tipo de herói, que só ganha os sufixo “super” porque com grandes poderes vem grandes responsabilidades: façanhas públicas, dignas de reconhecimento e idealização numa época de desesperança.

O Quarteto Fantástico é um grupo público. Não usam máscaras. Contam com um séquito de fãs, como astros do rock ou do cinema – um recurso que o atual roteirista do gibi, Mark Waid, tem explorado. São adorados pela mesma Nova York que ora idolatra, ora suspeita do Homem-Aranha, ao sabor dos ventos. Os X-Men ao menos contam com o apoio interno um dos outros. O cabeça-de-teia é um solitário, mesmo entre seus amigos e familiares, negados de seu segredo.

Se a crítica acertou em uma comparação, foi a de que Homem-Aranha 2 o torna uma figura trágica. Vou além: se Peter Parker é uma tragédia, Stan Lee foi o mais genial Sofócles ao acrescentar um coro grego que narra e lamenta suas histórias – o jornal Clarim Diário. É pelas páginas do tablóide que o Homem-Aranha sabe como o povo o percebe. A desgraça pública e a perseguição da imprensa o alvejam como se fossem a ira vã e injustificada dos deuses olímpicos. Não me parece estranho que o Clarim e seu ardiloso editor-chefe, John Jonah Jameson, ganharam mais peso neste segundo filme. Pouco antes de desistir de seu uniforme, o Aranha lê uma matéria no jornal que deturpa todo seu embate com o vilão Octopus no banco – um recurso comum nos quadrinhos, quase tão batido quanto a desistência de seu alter-ego.

No segundo ato, então, cai a máscara. Evidente. Preciso. Os roteiristas perceberam que não poderiam sustentar o personagem por uma longa franquia se não o descolassem do plano heróico para trazê-lo ao humano. As cenas em que o personagem interage (na maioria das vezes, resgata) pacatos nova-iorquinos são sempre bruscamente interrompidas pela partida ágil e espalhafatosa do herói: ele não está correndo atrás de algum inimigo; ele está deixando para trás o ridículo de sua comparação, lado a lado, com o humano comum. É por isso que funciona tão bem a minha segunda cena predileta do filme: seu encontro com um qualquer em um elevador. O constrangimento de sua roupa aberrante. O surreal de seus hábitos. Dali em diante, o público já começa a entender que o filme pretende inexoravelmente dissolver o Homem-Aranha, primeiro pelos poderes, até, por fim, a máscara, porque, se não pode oferecer a ele sua aclamação heróica, o fará com o homem sob ela.

Eis que, a todos, Peter Parker se revela. À namorada, como herói; ao vilão, como estudante e colega das ciências; ao amigo, como rival; e até mesmo à tia, como o responsável pela morte do marido dela. É um excesso, mas para validar o espírito do público, que não vai saber o desfecho da história na próximo mês, como ocorreria nos quadrinhos. Mas nenhum desmascaramento é mais necessário do que aquele entre os anônimos do metrô. Ali, ele é reconhecido como um igual. Não é a sua decadência ao nível dos comuns, mas a elevação de todos os outros ao nível de herói – daí a tentativa de tentarem defendê-lo diante de Octopus. O segredo, então, do sucesso de Homem-Aranha, herói, gibi e filme, não é mostrar um herói que tem problemas como nós. É mostrar que todos nós temos problemas como heróis.