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10 a 25 de agosto de 2004 Equipe Edições Anteriores

RECENTEMENTE #66

EU QUERO MEU SOFÁ NO LUGAR!
Mais uma idéia idiota que prova que os políticos só sabem solucionar problemas cerceando a vida do cidadão

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ia desses, em São Paulo, recebi o panfleto de um tradicional candidato a vereador. Li o papelzinho com afinco, impressionado que estava por ali conter suas propostas políticas, ao invés de apenas seu rosto sorridente e o número de cinco dígitos. Voltei para casa e, embora vote em São Bernardo do Campo, tive de escrevê-lo. Seu plano de governo eriçava mais meus pêlos da nuca do que algum fervor cívico.

Já há alguns anos, no trânsito caótico da cidade, tornaram-se comuns assaltos em que dois bandidos, numa mesma moto, abordam um motorista de carro. É o da garupa quem realiza a intimidação à mão armada. A idéia do candidato? Proibir o uso de garupas durante os dias da semana.

O Brasil e, acredito, ainda mais especificamente São Paulo, tem esse modo peculiar de lidar com as questões urgentes de seus habitantes. O candidato respondeu com tanta vêemencia meu email que só posso crer se tratar de uma miopia arraigada há anos no nossos ethos político. É a versão mais sinistra e cruel do jeitinho brasileiro de “deixar para a última hora”: criar soluções paliativas e que, ainda pior, sempre cerceiam a liberdade do cidadão de bem.

Digamos, então, que as garupas sejam proibidas. No dia em que eu quiser dar uma carona, na minha moto fictícia, a um colega de trabalho, levarei uma multa. Ele seria a obrigado a utilizar um veículo próprio, colaborando com nosso trânsito já caótico. Enquanto isso, a dupla de ladrões que usava a “técnica da garupa” ainda estará à solta, porque a lei nada fez para prendê-la – muito pelo contrário, lhe deu uma vítima extra, porque agora eles podem escolher se querem assaltar a mim ou ao meu colega. Basta-lhes, claro, uma nova contingência. Suponho que, se eles passassem a roubar dentro de ônibus, o digníssimo candidato a vereador criaria uma lei para proibir o uso de coletivos durante a semana.

Você está rindo? Pois estamos no país em que, quando aumentou o índice de assaltos a bancos eletrônicos, propôs-se, a sério, que os caixas 24 horas funcionassem 12 horas. Prender o ladrão? Resgatá-lo da marginalidade? Não, tudo isso é muito complexo e demorado. Restrinjamos ainda mais os direitos e gozos do contribuinte, do eleitor, do cidadão. Foda-se se ele precisar tirar dinheiro no meio da noite para uma emergência.

Em sua resposta, o candidato toma como exemplo o rodízio de automóveis no centro estendido de São Paulo, entre outras proibições de circulação. “O que motivaram tais leis? As necessidades que surgem com o ‘desenvolvimento' e o ‘progresso' dos grandes centros urbanos”, afirma. Interessante que ela tenha escolhido justamente este tópico já que, ao que parece, eu sou o único ser humano no estado de São Paulo que acha o rodízio de carros a idéia mais estúpida e ofensiva de todos os tempos. Basta dizer que, enquanto a gente se virava para cumprir a exigência do iluminado vereador Fábio Feldman, nada foi feito para resolver o problema de trânsito em sua origem. E, como era de se esperar, em 2002, o fluxo de carros nas ruas, mesmo com rodízio, já havia se igualado aos índices anterior à lei. Ou seja, o cidadão, como sempre, fez sua parte. Os políticos? Nada. Deixaram para a última hora. E ainda sugeriram que o rodízio fosse ampliado para dois dias da semana.

Aparentemente, é infinita a carga de sacrifício que podemos suportar para viver no Brasil. Vide os encargos tributários, outro exemplo evidente e escorchante das soluções paliativas para problemas profundos. No caso, a eterna falta de dinheiro do governo. Estamos há mais de dez anos pagando uma Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira que, de provisória, não tem nada, e cuja destinação, o Fundo Nacional de Saúde, é uma mentira deplorável e inepta.

Insisti, nos dois emails em que confrontei o candidato, para que ele me oferecesse soluções a longo prazo para o problema da violência – um nó górdio que envolve distribuição de renda, crescimento econômico e educação, e que não tem absolutamente nada a ver com uma garupa de moto. Em nenhuma de suas mensagens houve qualquer resposta. Talvez ele esteja agora matutando uma proposta de lei que simplesmente proíba as pessoas de serem pobres. Ou que proíba pobres de circularem nas ruas durante os dias da semana.

Não sei quanto a você, leitor, mas estou cansado de políticos que agem como aquele português da piada, que flagrou a esposa traindo-o com um amante no sofá. Para resolver a questão, vendeu o sofá. Chega de soluções imediatistas e eleitoreiras. Eu quero meu sofá no lugar!