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25 de agosto a 8 de setembro de 2004 Equipe Edições Anteriores

RECENTEMENTE #67

TURBINADOS
A polêmica está instaurada: você prefere pinto com ou sem prótese de silicone?

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

omo tudo de revolucionário na ciência, foi uma obra do acaso. Um jovem cirurgião estava dando plantão no pronto-socorro quando deu entrada um outro rapaz, alguns anos mais velhos, com uma enorme mancha de sangue no alto das pernas e no interno das coxas. Trazia num vidro de maionese cheio gelo os doze centímetros remanescentes de sua hombridade. Dizia que tinha se decepado acidentalmente quando fatiava uma cenoura. Pelado. Na cama. Não deixou que ninguém, contudo, ligasse para a esposa confirmando a história.

O nome dele era João Pinto (e não há ironia aqui). O cirurgião, famoso como estava prestes a ficar, deixemos anônimo. Teve complicações na operação para reimplantar o pênis do paciente. Precisava de um enxerto. Teve de trabalhar rápido – a perda de sangue era potencialmente ainda mais perigosa que a inevitável perda da dignidade. Adaptou uma prótese de silicone, ajustou a uretra e os vasos sanguíneos e pronto. João Pinto estava como novo.

Como novo, não. Por incrível que pareça, melhor. Cerca de quatro centímetros melhor, para ser mais exato. Enfim acima da média nacional. Retornou repetidas vezes para agradecer ao seu salvador. E, constrangido, não espalhou o incidente original, mas fez questão de exibir o resultado final a todos os colegas no vestiário da pelada de sábado. Talvez sua esposa, então acalmada, tenha feito um trabalho de divulgação ainda mais efetivo junto às amigas (sabe como são as mulheres). O fato é que a primeira prótese peniana funcional era um sucesso.

Na surdina, estranhos abordavam o cirurgião e lhe pediam que realizasse um procedimento igual. Não precisava ser muita coisa, sabe como é, eles se garantiam, mas uns centímetros extras nunca é demais, não é mesmo? Dinheiro não era problema. O médico revolucionário em breve montou sua própria clínica, a única no país e no mundo especializada em cirurgia plástica urológica. Ficou trilhardário.

Em todos os lugares, não se falava de outra coisa. Quem tinha feito. Quem não tinha feito. Qual famoso tinha feito mas negava até a morte. Em Copacabana e Ipanema, as mulheres checavam a sunga dos rapazes e elucubravam. As pudicas e conservadoras diziam logo que preferiam sem silicone. As mais jovens queriam mais era o estímulo visual mesmo. Ou tátil. Imagine, não dá nem pra sentir a diferença, é supernatural, diziam. E, entre os gays, o cirurgião foi alçado ao status de Cher e Pavel Novotny. Quem não era fã, era cliente. Ou vice-versa. Ou ambos.

A G Magazine lançou uma edição especial com turbinados confessos. Nos EUA, o já jegue vocalista do Motley Crue, Tommy Lee, competindo com a voracidade voluptuosa da esposa Pamela Anderson, ganhou os tablóides ao colocar uma prótese de três centímetros, depois trocar por outra de cinco e mais tarde por outra, com oito. Dizia que era recomendação da numeróloga. O cirurgião, claro, já havia aberto filiais em Hollywood, depois de várias espalhadas pelo Brasil. Vieram outras, no resto dos EUA e na Europa. E uma especialmente megalomaníaca no Japão.

A Calvin Klein, de olho na próxima tendência, anunciou um não-dotado como seu novo garoto-propaganda. Não adiantava. Meninos imberbes ao redor do planeta brigavam com os pais porque haviam sido proibidos de curar suas inseguranças ganhando centímetros na base da faca. Outras famílias, mais liberais, achavam melhor pagar logo o procedimento do que gastar muito mais com anos de terapia. O debate envolvia psicólogos, educadores, sexólogos, turbinados e mirrados no programa da Luciana Gimenez. E da Oprah. E da Thalia.

Entretanto, uma discreta porém ativa parcela da população masculina global passava a se articular. Eram contra a cirurgia. No meu pinto, ninguém toca, bradavam. Nasci assim e vou ficar assim. Que absurdo, reduzir o homem a um mero falo! Se alguém não protestasse agora, onde é que o mundo ia parar? Desafortunados financeira e fisicamente suportando a humilhação de comprar Zorba com enchimento? Marmanjos rebolando e chacoalhando a genitália na frente das câmeras, ao som da mais nova banda de axé bahiana? Saradões siliconados, sempre de sunga, para anunciar margarina às mulheres – mesmo que a propaganda se passasse num elevador?

No seu cantinho do mundo, João Pinto não tinha do que reclamar. Não só ele era tratado como um Pinto pioneiro como também parara de receber aqueles benditos spams sobre como aumentar seu pênis. Todas aquelas empresas faliram.