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RECENTEMENTE #68
REVOLUÇÃO EM SLOW-MOTION
O cinema digital vai além daquela câmara que você quer comprar. Em breve, ele irá revolucionar o modo como você vê filmes
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 O excelente thriller Colateral , que estreou no último dia 27, não representa apenas a passagem do astro Tom Cruise ao universo dos vilões. Marca, também, a adesão de mais um diretor de peso, o veterano Michael Mann, à tecnologia digital. Mann rodou parte do filme com uma câmara Sony HDW-F900 CineAlta, que permitia um contraste de cores mais interessante às cenas noturnas. Ainda não se sabe se o diretor irá adotar de vez a nova mídia pelo resto da carreira, mas é mais um dado interessante nesta que é, possivelmente, a mais estranha e demorada das “revoluções digitais”.
As câmeras digitais já estão disponíveis há bastante tempo em Hollywood – bem como ao redor do mundo. É o tipo de equipamento que pode alterar radicalmente não apenas o fazer fílmico, mas também toda a indústria por completo. Talvez seja por isto que, até agora, poucos grandes realizadores tenham trocado a película tradicional pelo registro etéreo em zeros e uns. Os estúdios ainda não estimulam a utilização da novidade, embora seja tecnicamente mais barata. Os executivos mais reticentes acreditam que o público conservador ainda não se acostumou com a textura visual diferente que ela proporciona.
O debate ainda não veio à público e, quando veio, concentrou-se em um aspecto mais superficial da revolução: a “democratização” da produção cinematográfica. Câmaras digitais não consomem filme, portanto são mais leves e infinitamente mais econômicas. Os atores poderiam repetir a mesma tomada quantas vezes achassem necessário – basta deletar o registro anterior. A edição, portanto, também seria supostamente mais fácil. No Brasil, elas já começam a se tornar um fetiche marginal. O novo e polêmico Cama de Gato , estrelado por Caio Blatt, foi rodado com uma delas (e somente pôde ser viabilizado assim).
OK, mas e você, cinéfilo assíduo que não tem nenhuma pretensão de ser o próximo Spielberg? Qual seria o impacto desta nova tecnologia na sua vida? Basta lembra que, mais de 100 anos atrás, quando os irmãos Lumiére inventaram o cinema enquanto técnica, seu aparelho não apenas registrava como também projetava os filmes. E é nesta seara, ainda tão pouco discutida, que a digitalização da sétima arte tende a se desdobrar. A já mencionadada “democratização” não se restringirá à produção cinematográfica, mas também à distribuição e exibição.
Sabe quantos municípios brasileiros são atendidos por pelo menos uma única sala de cinema? Cerca de 5%. Em um país de proporções continentais, com um sistema de transporte decadente que pouco faz para integrar suas distintas regiões, torna-se inviável tanto para certas distribuidoras, na maioria sediadas no eixo Rio-São Paulo, enviar cópias de seus filmes para o interior do país quanto para empresários do circuito exibidor pagá-las. No instante, porém, em que filmes forem transformados em arquivos digitais, ninguém mais precisaria custear um laboratório para a realização de cópias a partir da película-matriz, ou ainda enviar por caminhão ou avião as dezenas de latas: bastaria um clique via internet.
Cinemas economizariam com projetistas. Além disso, sem o tempo necessário para “rebobinar” o único rolo de filme apresentado diversas vezes ao longo do dia, o intervalo entre as sessões diminuiria. Estima-se que, para filmes com até 1h40, seria possível realizar uma apresentação extra todo dia. Ou seja, mais dinheiro no bolso do exibidor. A oferta poderia acarretar também na baixa do preço dos ingressos – que hoje, em São Paulo, já rondam a casa dos R$ 20. E o espectador pagaria o valor de bom grado: equipamentos digitais melhoram a nitidez da imagem e dão menos problemas técnicos.
As decorrências da projeção digital também poderiam ser sentidas globalmente. Países menores ou mais distantes não mais receberiam os “lançamentos” quando o resto da Terra já os assiste em DVD. Além disso, estúdios poderiam maximizar lucros com as estréias (aí sim) verdadeiramente mundiais e simultâneas. A era do “cinema blockbuster” como a conhecemos hoje, com a necessidade de seus gastos vultuosos em marketing e uma estratégia quase de guerra na agenda de lançamentos, começou exatamente quando Steven Spielberg convenceu a Universal a lançar pela primeira vez um filme simultaneamente em todo o território americano: Tubarão . Imagina então o que sucederia a primeira iniciativa similar a esta, mas em escala planetária?
Há, evidentemente, os aspectos contrários à digitalização dos arquivos cinematográficos – sendo o mais evidente, claro, a facilidade com que novos filmes poderiam ser desviados, contrabandeados e pirateados. Entende-se, portanto, as reservas dos grandes estúdios e das grandes empresas de exibição. O próprio Spielberg contrariou o amigo George Lucas (que rodou os novos Star Wars inteiramente com câmaras digitais) e já deu entrevistas dizendo que acredita que essa mídia jamais irá dar certo. Só o tempo poderá dizer. Ao leitor cinéfilo, só me resta recomendar que assista a Colateral – um excelente filme e, espero, mais um indício de uma nova era muito melhor.
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