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2 a 23 de outubro de 2004 Equipe Edições Anteriores

RECENTEMENTE #69

MINHA NOÇÃO DE INFERNO
Um inferno automotivo e metropolitano com tamanha riqueza detalhes que assustaria até Dante
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

inha noção de inferno é uma avenida ampla, reta até o infinito, de asfalto plano, nu dia de calor moçambicano. Dirijo um carro esportivo capaz de atingir velocidades nababescas. Mas os vidros estão fechados, visto terno e gravata e o ar condicionado não está funcionando. Sinto o suor empapuçando minha cueca e colando minhas costas à da camisa.

Não há trânsito algum na minha noção de inferno. Para meu desespero, porém, três veículos colocam-se entre meu carro e meu destino. Deslocam-se como lesmas à minha frente, ocupando todas as faixas paralelamente, me impedindo de ultrapassá-los ou de exercitar o velocímetro além dos 40 km/h. O motor ronca ferozmente; troco de rabeiras furioso em busca de uma brecha, mas nunca tenho chance. A temperatura dentro do carro se eleva.

Na faixa da esquerda está uma Brasília 78 amarela, fosca de tanta sujeira, ocupada por uma família – pai, mãe e uns seis filhos, espremidos no banco de trás. As crianças se movem sem parar, excitadas, insuportáveis. Vão para a praia, talvez. Os pneus parecem carecas. A lataria guincha como um porco. Ou um vira-lata. O pára-choques traseiro está amarrado toscamente por um barbante. Pouco acima, a família exibe com um orgulho humilde tipicamente brasileiro um enorme adesivo retangular, platinado, onde está escrito em degradê do vermelho para o amarelo: “Jesus, Leão de Judá”.

Ao seu lado está um caminhão igualmente mal cuidado. Na caçamba, aberta, cercada por aquelas madeiras com entalhes de curvas ridiculamente coloridas, assoberba-se, ameaçadora, uma carga anônima. Não é preciso identificá-la, contudo, para perceber que está obcenamente acima da capacidade do veículo. Os eixos traseiros estão arriados. A fumaça preta que sai do escapamento revela um motor no limite de seu fôlego – e que ainda assim não consegue propelir a monstruosidade numa velocidade digna. Um gracejo popularesco no pára-lamas esforça-se para ser engraçado. Está além do meu humor.

O terceiro e último carro é um daqueles jipões esportivos que se tornaram fetiche entre as mulheres, por parecer insuflar-lhes autoconfiança. Como ironicamente de praxe, é dirigido por uma mulher que esbanja tudo – beleza, fortuna, elegância – menos autoconfiança. Ao contrário dos motoristas anteriores, ela conduz um veículo tão capaz quanto o meu. Mas ainda assim não consegue pressionar seu salto estileto contra o acelerador, por dois motivos. O primeiro é que ela tem um pavor irracional de caminhões. Embora sua faixa seja ampla o suficiente para permitir o tráfego de uma baleia jubarte, ela não consegue se desvencilhar da impressão de que seu vizinho de pista reagirá a uma tentativa de ultrapassagem esmagando-a sadicamente contra a guia. O segundo é que a avenida está ladeada por várias placas indicando detecção eletrônica de velocidades superiores a 40 km/h. E, embora ela tenha feito este caminho todo santo dia pelos últimos cinco anos, ainda não foi capaz de notar que, apesar dos avisos, não há, de fato, nem um radar fotográfico sequer.

Da concepção mais tradicional do inferno, acho que o meu só mantém o calor insuportável. Já da mais filosófica de suas definições, a sartriana, tem muito e mais um pouco em comum: o inferno são os outros (veículos, motoristas). Sei que sou forçado a encarar nada além de suas traseiras, mas, mesmo quando suas emissões tóxicas tentam nublar minha visão, ainda consigo vislumbrar, entre um carro e outro, o fim da avenida. E lá, a cada hora quarenta kilômetros mais perto, está o paraíso.