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RECENTEMENTE #70
O MUNDO ATRAVÉS DA CÂMERA
Mostra BR de Cinema borra os limites entre documentário e ficção na tendência mais clara deste ano
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 e é possível traçar uma tendência clara no vagalhão de filmes exibidos na 28 ª Mostra BR de Cinema deste ano, ela é a mistura deliberada da ficção e do documentário. Há cerca de 15 filmes que oscilam entre os gêneros. Se o próprio Godard dizia que “o cinema é a verdade a 24 quadros por segundo”, e depois, “a mentira a 24 quadros por segundos”, os diretores atuais parecem ter achado seu meio termo – uma dúzia de frames de cada lado.
Não se trata do velho recurso de decantar ambos os gêneros, como água e óleo, como duas perspectivas que funcionam independentes sobre um mesmo tema –recurso comum nos documentários, como é o caso de Olga Benário – Uma Vida pela Revolução , de Galip Iyitanir Vê-se, no geral, uma metalinguagem mais perturbadora, que promove o filme por um segundo filme, ora entranhando o documentário como uma necessidade dos personagens – caso da mulher estuprada de UR4 Given , de Cinqué Lee, que realiza um longa-metragem para ajudar outras vítimas do mesmo crime – ora oferecendo a ficção como um arremedo para investigações que só a suposta sinceridade do documentário permite realizar – caso de A Felicidade É uma Canção Triste , de François Delisle, no qual uma publicitária sai às ruas de Montreal perguntando o que é a felicidade.
A asfixia provocada pelo monópolio americano sobre a forma e o conteúdo do cinema sem dúvida sempre estimulou os cineastas a buscar novos fazeres cinematográficos, mas agora parece tê-los despertado para um fervor quase democrático. Ao entregarem seus instrumentos de trabalho a seus personagens, ou mesmo empunhá-los eles próprios, tentam compartilhar o imenso poder da câmera. Um poder político, sobretudo, como seria natural ao gênero do documentário, mas também e principalmente um poder terapêutico, como é próprio da catarse ficcional.
Em Tormento , um dos filmes independentes mais elogiados pelo mundinho da Mostra, Jonathan Caouette reconta trinta anos das neuroses de sua família apenas editando vídeos caseiros e outros materiais domésticos, como gravações de secretária eletrônica. A contundente a história de sua mãe, que, diagnosticada como esquizofrênica, foi internada em diversos manicômios, serve como um centro gravitacional que rearranja esse “registro da realidade” sob a estrutura de um roteiro ficcional – o do drama familiar. Trafegando no sentido inverso, um dos protagonistas de Sangue , uma trama familiar ficcional, só consegue lidar com o misterioso assassinato de seu pai reencenando, diante das câmeras, possíveis maneiras de como o crime teria acontecido (e esta pulsão da morte voyeurística que a câmera permite é também o mote de O Último Filme de Horror , que conta quase a mesma história, mas pela visão do assassinato, um serial killer cineasta).
Em comum, os filmes atestam não apenas a invasão do documentário no terreno de outros gêneros, mas também a ascensão do documentarista ao spotlight – fenômenos creditados, sem sombra de dúvida, ao sucesso de Michael Moore, diretor de Tiros em Columbine e, em menor grau, a Morgan Spurlock, de Super Size Me . O cineasta deste tipo não mais é um mero observador dos fatos, mas um personagem (e que termo apropriado) ativo. Sua figura tornou-se poderosa, evocativa. O nacional Procuradas recruta uma videomaker e sua câmera inquisidora para ajudar a irmã de uma prostituta desaparecida a procurá-la. O canadense A Delicada Arte de Estacionar traz um cineasta que, cansado de levar multas, decide realizar um documentário sobre o departamento de trânsito cujo foco é ele mesmo. No experimental argentino Cielo Azul, Cielo Negro , é através da câmera de um casal que entendemos as passagens não-narrativas, fabulosos espetáculos de dança.
É certo que outros filmes desta Mostra contam fortemente com o fascínio de cinema em suas múltiplas experiências – os diretores de Má Educação , de Almodóvar; os cinéfilos de Os Sonhadores , de Bertolucci; os projetistas de Caçados por Sonhos , de Dasgupta. Mas nunca houve uma necessidade aparente tão grande de se entender o mundo através das lentes e das películas; de se registrar as várias camadas que parecem tão misturadas nos dias de hoje; de imiscuir o factual com o imaginário; o público com o particular. Se antes acreditava-se que o cinema era a fuga, um escape onírico para a realidade, talvez deva-se pensar que, na sociedade intensamente imagética e midiática de hoje, a realidade está tentando reencontrar seu lugar de direito. E o público, mais até que os realizadores, está permitindo.
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