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RECENTEMENTE #71
DOCUMENTÁRIOS DE UM HOMEM SÓ
Nova onda do documentário nacional tenta estabelecer um novo panteão de heróis nas telas
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 melhor do Brasil é o brasileiro? A propaganda subsidiada pelo governo pode parecer piegas e ufanista, mas há pelo menos um segmento do panorama cultural nacional que parece compactuar com esta visão: os documentaristas. Na Recentemente da última edição, comentei uma tendência flagrante na última Mostra BR de Cinema de São Paulo: o modo como a ficção estava fagocitando o documentário (ou seria o oposto?), sem outra opção diante da efervescência do gênero. Esta coluna discorre sobre um fenômeno complementar: a predileção dos documentaristas nacionais por um subgênero específico, o da cinebiografia.
A seleção da Mostra era exemplar. De surfistas a líderes religiosos, de embaixadores-mártires a violonistas, todo tipo de personalidade monopolizou a temática dos documentários escolhidos – uns com mais brilho, outros com menos. Mesmo pelo circuito comercial já passaram películas sobre a vida de gentes variadas como Sérgio Buarque de Hollanda, Nelson Freire, Gláuber Rocha, Castro Alves, Paulinho da Viola, Pelé (isso sem mesmo entrar no mérito das reconstituições ficcionais, que só neste ano incluem Olga Benário, Cazuza e Garrincha).
O viés parecer ter, principalmente, uma justificativa econômica: num país em que já se é difícil fazer cinema, quanto mais documentário, pode ser mais barato focar um único “personagem”. Sua aquiescência já é meio caminho andado para o diretor. Basta agora acompanhá-lo em seu cotidiano, câmera na mão, (alguma) idéia na cabeça.
Não obstante, muitos destes documentários merecem tanta ou mais desconfiança quanto qualquer biografia “oficialmente autorizada”. Beiram o institucional, chapa branquíssima, no que tem de mais involuntariamente marqueteiro e, pior, maçante. Quem melhor sumarizou a contradição do subgênero foi Rubens Ewald Filho, ao comentar Paulinho da Viola – Meu Tempo É Hoje . O crítico não gostou do filme não porque não retratou com sinceridade à figura do cantor e compositor amável que todos conhecem, mas exatamente por ser fiel demais. Rubens matou a charada: Paulinho é uma figura cordial demais. O filme, portanto, não tinha conflito algum – e eis a grande revelação para o público e, principalmente, para os realizadores: documentários também tem que ter um bom conflito. Não é à toa que freqüentemente aqueles que abordam personalidades já falecidas parecem mais dinâmicos, porque lidam com o evidente obstáculo de reconstituir, em plena película, alguém que não mais está lá, pela multiplicidade de sua obra e pelos depoimentos daqueles que os conheceram.
Há, no entanto, outro elemento nesta onda de biografias em documentário, que não deixa realmente de ter a ver com o ufanismo de “o melhor do Brasil é o brasileiro”. Numa sociedade midiática com um fortíssimo conglomerado como a Globo que permeia praticamente cada aspecto da vida da população, alguns documentários assumem a postura de tentar resgatar os contribuintes esquecidos da nossa formação cultural, política e social. Em tempos de Caras , querem deixar mais nítida a distinção entre “celebridade” e “personalidade”. E aí vale de tudo, desde ir até os rincões pantaneiros para entrevistar Helena Meirelles, em A Dama da Viola , até tentar guerrilhar contra o preconceito intelecutalóide contra um esporte como o surfe, em Fabio Fabuloso .
A escolha destas figuras, contudo, ainda me parece enclausurada no mesmo mosaico ufanista que o governo militar compôs há trinta anos do povo para o próprio povo. Tal qual a pieguice da propaganda estrelada por Herbert Vianna, estes documentários ainda insistem em honrar “heróis” que vêm do esporte, da música ou da literatura – esse é o sumário baixo de nossa cultura. Por fim, não conseguem desanuviar a velha percepção, do público, de que mais uma vez esta escolha de “personalidades” continua sendo realizada unilateralmente, de cima para baixo. Os eleitores mudaram, os critérios talvez nem isso, o resultado definitivamente não. E, assim, os documentários vão não mais longe do que registros históricos interessantes, válidos, mas sem ressonância – nem mesmo são capazes de cumprir sua meta de catequese cultural.
Em tempo: quem venceu as categorias de melhor documentário tanto no festival do Rio quanto de São Paulo este ano? Estamira , de Marcos Prado. Um documentário biográfico, sim, mas sobre uma líder comunitária esquizofrênica de um lixão carioca. Sentimentalismo à parte, confio que foi o anonimato de uma figura do povo como tema que provocou tanta empatia do público.
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