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5 a 19 de dezembro 2004
Equipe Edições Anteriores

RECENTEMENTE #72

BEM-VINDO AO CLUBE
Quando vale a pena expor nossa orientação sexual? Quem tem direito de conhecê-la?
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

novo Guia cultural do Estado de S. Paulo tem uma pequena seção na qual são respondidas algumas dúvidas dos leitores. Na segunda edição do suplemento, logo no início da nova edição do Festival Mix Brasil, um rapaz escreveu dizendo que queria ver os filmes, mas não sabia se podia, porque não era gay.

Eu achei a carta peculiar. É um silogismo tão perverso que me fez indagar se eu, que vivo afogado no meu próprio mundo de idéias liberais, talvez esteja irreversivelmente apartado de como as outras pessoas pensam. Talvez eu não consiga nunca mais pensar como um heterossexual. Será que aquele leitor era um caso esporádico de pouca ilustração, ou muitos outros pensavam como ele?

Minhas elucubrações não foram todas trágicas, claro. Fiquei pensando em lanterninhas esfuziantes, na porta de cada sessão do Mix, inspecionando a viadagem daqueles que queriam entrar. Qual seria o critério? Talvez devêssemos entoar alguma canção da Gloria Gaynor quando entregássemos o ingresso (perdão pelo estereótipo). Eu temo menos pelo preconceito reverso do que pela lentidão do atendimento e pelo tamanho da fila. Mais ainda, imagine o inevitável desmascaramento público daquele cidadão que quis participar clandestinamente. Talvez seria mais fácil para todos se carregássemos carteirinhas, como num clube.

O Estado chamou o criador do Festival (e colunista da Folha ), André Fischer, para responder. Ao invés de aproveitar o espaço para apregoar a cartilha da tolerância e da inclusão sexual, como a maioria dos ativistas costuma fazer quase automaticamente, ele me surpreendeu invertendo a lógica. Partiu não do público para o conteúdo dos filmes, mas ao contrário. Disse que o Mix não mais exibia apenas filmes sobre a homossexualidade, como no começo, mas sobre comportamento em geral, o que portanto tornava-o adequado a qualquer cinéfilo. Gente como eu, que toma como hobby favorito distorcer as palavras alheias e disseminar o primado da livre interpretação, entenderia facilmente então que, no passado, hétero estava mesmo proibido de entrar. E que, mesmo hoje, não seria lá muito interessante (deus me livre e guarde!) que um hétero topasse acidentalmente com um filme gay, numa dessas descobertas não-intermediadas que são a graça de qualquer festival.

Não acho condenável que Fischer tenha respondido mais como curador do que como ativista. Está tentando apelar para todo público possível, diante de um festival que não tem o mesmo peso que antes, simplesmente porque o público gay já arranjou outras maneiras de se reconhecer e se expressar. Ao menos, o Mix tem tentado se renovar tanto quanto sua audiência.

Fato paralelo: minha academia fez um mutirão pela doação de sangue. Os hospitais da minha cidade estão com seus estoques quase esgotados. Decidi participar, mesmo sabendo que teria de mentir sobre minha orientação sexual, uma atitude que costuma me deixar irritado. Mesmo com pouquíssimas pessoas na fila (“estamos abaixo do peso permitido”, alegaram duas “viciadas em malhação” que só observavam o movimento), lá veio o mesmo questionário-padrão de exclusão.

Eu tinha minhas próprias dúvidas, mas guardei-as para mim. Se eu só tive um único parceiro sexual nos últimos meses, que importa se foi um homem ou uma mulher? Meu sangue vale menos do que o do heterossexual que transou duas ou três mulheres – e que portanto teve 200% mais chances de infecção do que eu e mesmo assim é aceito na triagem? A Folha publicou um relatório da ONU a respeito da progressão da AIDS: a parcela da população cujos índices de contaminação mais têm subido no mundo são os das mulheres heterossexuais, que são as menos visadas pelas campanhas de conscientização. Será que os critérios dos bancos de sangue já não podiam se atualizar?

Mais importante: é correto mentir nesses casos? Nem o meu primado da livre interpretação rege sobre esses dilemas sem uma pontada de remorso. Afinal, quando a exposição pública da nossa sexualidade deve ser considerada? É tudo uma ética pessoal? Ou seria comunitária? Em tempo: a enfermeira que sugou meu sangue disse que vou receber em casa uma carteirinha de doador. Acho que vou usá-la para atestar com quem vou pra cama na bilheteria do próximo Mix.