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RECENTEMENTE #73
INVERSÃO DE PAPÉIS
O que quer dizer a reação furiosa dos leitores da Playboy contra uma matéria sobre estimulação anal
por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
m artigo polêmico da revista Playboy já foi tema desta coluna há pouco mais de um ano. Reclamei de uma reportagem que enquadrava a homossexualidade feminina na mais egocêntrica lógica masculina - na verdade, elas só se beijavam para provocar os machos ao redor. Na época, constatei o quanto a Playboy cada vez mais descia de seu patamar de sofisticação para se equiparar ao humor panaca da VIP. Ao que parece, eu estava certo: em novembro, a Playboy sofreu uma reformulação gráfica e, mais importante, editorial, eliminando a testosterona adolescente e voltando a conversar com os trintões bem-sucedidos que não encaram a revista como uma fotonovela erótica.
Desta vez, porém, foram estes leitores que me decepcionaram. Disposta a mostrar a que veio, logo na primeira edição revitalizada a Playboy se propôs um misto de batizado de fogo e prova dos nove: abordou o cabeludíssimo tabu dos homens que sentem prazer com a estimulação anal. Acanhados, os entrevistados explicaram o quanto o “fio-terra” ainda é visto como “coisa de viado”. O texto, dispensando as piadinhas de outrora, foi sutil mas didático, disposto a desmistificar esta prática sexual. E a foto, por sua vez, foi um primor de bom gosto, ajudando a dar uma “cara” a um assunto que, sob a égide do preconceito bobo, permanece tão anônimo quanto seus entrevistados sob nomes fictícios.
A bomba explodiu um mês depois, na seção de cartas da Playboy de dezembro. O primeiro leitor elogiava o pioneirismo da reportagem. Os seguintes eram curtos e grossos: “o artigo pertence a uma revista para homossexuais”, dizia um missivista (e eu aposto uma assinatura da G Magazine que o termo “homossexuais” foi boa educação dos editores, porque na carta original deveria haver ali um palavrão bem vulgar). A resposta da Redação parecia um excerto de um guia Sexualidade para Idiotas: “Homossexual é a pessoa que possui atração e sentimentos por outra do mesmo sexo. A prática descrita na matéria é entre um homem e uma mulher”.
O que está em jogo, por incrível que pareça, não é o temor destes homens diante de uma outra condição sexual - associada à perversão, à humilhação social e à vergonha. Quando se manifestam tão pronta e irracionalmente, quase como uma reação de defesa inconsciente, estes homens abrem uma breve janela para a mentalidade fundamentalista que ainda reina na cabecinha de muitos: a do sexo não como um ato de prazer, mas como um ato de poder.
Quem assina essas cartas é o arquétipo do homem com o falo poderoso, o falo desbravador, o falo que subjuga e que, acima de tudo, viola. É ele quem come a mulher. A mulher simplesmente dá. É ele quem invade a integridade do corpo dela. É ele que, assim crê, dá prazer a ela (pense aí na refração dos homens às preliminares). Só que, na estimulação anal, vira-se o jogo. São elas quem penetram - e penetrar é trabalho do macho. São eles quem sentem o prazer da penetração - e esta é supostamente a função feminina.
É como trazer a guerra dos sexos, sem qualquer conotação cômica, da sociedade para a cama. É o homem perdendo o controle da mulher - e o que são o estupro, a exigência da virgindade ou a clitorização nas tribos africanas senão exercícios de controle que perduram até hoje? A sociedade dita “civilizada” simplesmente achou outros meios.
Nesse momento em que alarmes patriarcais ancestrais soam alto, o espectro da homossexualidade nem está tão presente quanto imaginam. Entre os entrevistados da matéria, nenhum deles justificou sua rejeição à prática por causa da dor que provoca. Não há qualquer referência física à dor, porque os homens não distinguem a evidente diferença em dimensões entre o dedo ou a língua da parceira e o pênis de um outro homem. Penetração é penetração, ponto final. E, mais uma vez: ser penetrado é coisa de mulher. Correlata a esta crença está aquela que apazigua os enrustidos ativos: “não sou gay porque estou comendo”. Ou ainda aquela surreal pergunta, diante de dois homens que namoram: “mas qual de vocês dois é a mulher?” (e há quem não entenda quando nós respondemos fazendo cara de ponto de interrogação).
Odeio simplificar as coisas em termos de “nós versus eles”, mas é por essas e outras que ainda acho que a raiva dos héteros contra os gays é, em grande parte, motivada pela inveja. Enquanto vocês estão aí se preocupando com quem domina quem ou com o que os vizinhos vão falar, a gente está exercendo nossa sexualidade da melhor maneira possível: sem preconceitos. Vocês ainda têm muito o que aprender com a gente e não estou me referindo, de maneira alguma, à prática do fio-terra.
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