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6 a 21 de novembro de 2006
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RESIDÊNCIA RABISCO #01

TATUAGENS & TATUADOS
Sergio Maciel fala nesta primeira edição sobre a tatuagem como arte, elemento sagrado e identidade pessoal
por Andréia Moroni (andreiamoroni@hotmail.com)

projeto Tatuagens & Tatuados conta as histórias que existem por trás dos desenhos gravados na pele. Desvenda os relatos que as tatuagens guardam sobre as pessoas: seu significado e representação, os porquês de tatuar-se, a relação com sua identidade e história pessoal. Porque as tatuagens podem ser mais que uma forma de arte: são memória, são autobiográficas, contam uma história sobre a pessoa.

São essas histórias pessoais que você vai encontrar aqui. O Rabisco aproveita o mês em que a Convenção Internacional de Tatuagem do Brasil chegou à décima edição entre os dias 20 a 22 de outubro em São Paulo, no Espaço das Américas, e inaugura a nova coluna com o depoimento de Sérgio Maciel, o Led´s, um de seus idealizadores.

Sérgio Maciel é artista, tatuador e proprietário do Led´s Tattoo Studio , além de um dos organizadores da X Convenção Internacional de Tatuagem do Brasil. A seguir, ele conta como as tatuagens entraram em sua vida, fala de espiritualidade e de sua relação com os clientes. Depoimento a Andréia Moroni.

“Tatuar é uma missão. A pessoa quer realizar um sonho e você colabora para isso”

Antes de tatuar eu era artista plástico. Desde pequeno eu já desenhava e pintava telas. Estudei em academias de arte, como a Escola Panamericana de Arte e a Academia Paulista de Belas Artes. Sempre lidei com vários tipos de materiais, resinas, já mexi muito com outras técnicas relacionadas às artes plásticas. Eu pintava e pesquisava, sempre gostei disso. Quando comecei a ter contato com a tatuagem, passei a ver as possibilidades do que fazia nas telas, na pele. Isso foi mais ou menos em 1982.

Comecei a conhecer a arte da tatuagem através de um tatuador que estudou nos Estados Unidos e trouxe as técnicas pra cá. Então decidi pesquisar as possibilidades de técnicas que podiam ser aplicadas na pele. Resolvi estudar o assunto, pesquisar materiais. Fui para o Rio de Janeiro e lá consegui alguma coisa sobre materiais para tatuagem. Com o conhecimento que eu possuía de pintura e desenho aquilo se tornou muito familiar. Foi incrível, foi algo que me conectou à tatuagem logo que eu vi. Nessa época eu ainda não tinha nenhuma tatuagem.

Passei a observar muitos desenhos e motivos de tatuagens e a desenhar. Então resolvi experimentar em pele de animais. Peguei um peixe sem escamas, de couro, e fiz minha primeira tatuagem num peixe. Em porco também dá para fazer, a pele do leitão é bem parecida com a pele humana e dá para trabalhar bem. Me adaptei bastante rápido a isso e passei a fazer um trabalho de recuperação de tatuagens velhas, feitas a mão, o que tornou o início mais fácil, pois as tatuagens a mão são feitas com agulhas amarradas com uma linha e com tinta, é um método primitivo e não fica muito legal. Geralmente o material usado é um material ruim, além de as agulhas também serem ruins. Com isso, para mim foi mais fácil começar a trabalhar com essas tatuagens porque eu sempre deixava o resultado muito mais bonito. A adaptação foi fácil devido à minha dedicação, porque eu sempre me dediquei. Me dedico a fundo a tudo o que faço na vida. Procuro trabalhar com a alma, projetar isso, canalizar bem.

“Decidi fazer a tatuagem eu mesmo”

A primeira tatuagem que eu fiz foi uma águia. Fiz em um conhecido, ele sabia que seria a primeira e autorizou. Foi até engraçado. Na tatuagem você trabalha com estêncil, cola o desenho e ele fica decalcado na pele. Comecei a tatuar e o desenho começou a apagar. Aí eu não tinha mais uma base para continuar o trabalho que estava fazendo, e era um trabalho bem complicado: uma águia pousada num tronco de árvore, um desenho superdetalhado. Fiquei um pouco nervoso na hora pelo fato de o desenho estar se apagando. Mas depois superei isso, refiz o desenho a caneta e a tatuagem ficou linda. Ficou maravilhosa. Depois de uns anos essa pessoa veio ao estúdio me mostrar a tatuagem e ela estava muito legal.

Para ser o primeiro trabalho, acho que devido a essa dedicação, a esse esforço, ficou muito legal mesmo. É claro que eu não posso comparar esse trabalho com os trabalhos de hoje ou com os que vou fazer no futuro, porque a cada dia você cresce mais, aprende mais, vai se transformando, modifica a sua aplicação e a sua técnica, então os resultados vão crescendo. Mas, para a época, ficou um trabalho muito bom. Isso foi por volta de 1983.

Então eu fiz uma tatuagem em mim. É um trabalho legal, complicado, mesmo considerando o conhecimento que a gente tem de arte hoje. Eu fiz duas araras com um sol atrás, na minha perna. Um desenho tradicional. Essa foi a primeira que eu tive. Decidi fazer a tatuagem eu mesmo porque eu tinha o material, tinha a máquina e tinha a segurança de que podia fazer esse trabalho.

A partir daí comecei a pegar outros trabalhos para refazer e continuei desenhando, sempre desenhando, porque não tinha clientes naquela época. Era muito difícil. Eu fazia uma tatuagem a cada dez dias, a cada mês. Então tinha muito tempo para desenhar e ficava desenhando, me dedicava ao desenho para poder aprimorar as técnicas.

“As pessoas têm que saber o que é essa arte, como é feita, quem a faz”.

Eu sempre me preocupei em querer mostrar para a sociedade essa expressão de arte, porque é arte realmente, não é uma coisa de marinheiros, de bandidos, como se falava antigamente. De lá pra cá foram anos de trabalho, lutei muito para divulgar a tatuagem. Eram pouquíssimos os tatuadores no Brasil e havia muito preconceito. Naquela época o Caetano cantava a música do “Menino do Rio/ ...dragão tatuado no braço”. A Monique Evans tinha uma ou duas tatuagenzinhas e começou a mostrar para a sociedade que aquilo era uma arte, ela tinha a tatuagenzinha dela e mostrava na boa. Sofria bastante discriminação, mas já foi uma abertura.

Daí eu comecei a divulgar a tatuagem, a trabalhar para que isso viesse à tona mesmo. Por quê? Porque se eu queria viver dessa arte, eu precisava mostrar para as pessoas que é uma arte e que não é má, que não tinha porque ser discriminada. Todo tipo de arte que nós conhecemos na história já foi discriminada. Os atores e atrizes de TV já foram discriminados. Músicos já foram discriminados e considerados vagabundos. Várias manifestações artísticas já foram discriminadas. O Van Gogh não vendeu um quadro em vida e hoje os quadros dele estão entre os mais caros do mundo. Todas essas manifestações já sofreram uma certa discriminação, mas também por falta de informação.

A tatuagem veio para o Brasil através da região portuária e se proliferou entre os estivadores e as prostitutas do cais, entre os marinheiros realmente. Então, era mesmo marginalizada. Mas existem várias culturas pelo mundo inteiro que têm muito respeito pela tatuagem. Existem fámilias tradicionais que passam as técnicas entre as gerações e há culturas em que a tatuagem é altamente religiosa, ela representa certos conceitos religiosos. Inclusive tem pessoas que preparam pigmentos considerados sagrados.

As pessoas têm que saber o que é essa arte, como é feita, quem a faz – não são vagabundos, são pessoas que estudam, que se dedicam à arte, pais de família, pessoas de boa índole, com um bom caráter. Tanto nessa profissão como em qualquer outra existem os bons e os maus profissionais. Isso em tudo na vida. Você encontra bons advogados, com uma ética profissional incrível, e encontra outros que não têm ética nenhuma. Você encontra dentistas bons e dentistas ruins. Médicos bons e médicos que fazem chacinas. 

Eu panfletava, colocava informações dentro de jornais, saía por aí em festas distribuindo minha propaganda. Quando realmente comecei a tatuar, eu trabalhava num quartinho, uma coisa bem pequena. Eu passava bastante tempo sem tatuar, mas me dedicava ao desenho. Tive que ter muita persistência, perseverança e acreditar no que eu fazia. Sempre acreditei no que eu faço e naquela época eu já acreditava. Fui trabalhando, trabalhando e o número de clientes foi aumentando, o pessoal gostava do trabalho. Até hoje clientes de 15, 20 anos atrás vêm ao estúdio e estão satisfeitos com os trabalhos.

“Me vi na obrigação de dar continuidade a esse evento, a Convenção Internacional de Tatuagem do Brasil”

Em 1990, o Marco Leone, um tatuador italiano que veio para o Brasil, organizou a primeira Convenção Internacional de Tatuagem. Ele também foi uma pessoa que lutou e de certa forma projetou a tatuagem na mídia. Ele acabou tendo alguns problemas, foi embora do país e eu me vi na obrigação de dar continuidade a esse evento, a Convenção Internacional de Tatuagem do Brasil. Hoje nós estamos na décima edição.

Em 1995, cinco anos depois, fizemos a segunda Convenção Internacional no Brasil. Conseguimos trazer vários artistas estrangeiros e brasileiros. Com isso, montamos uma assessoria de imprensa através da qual a mídia pudesse vir e mostrar para a população, para a sociedade, o que é a tatuagem. Com esse evento, nasceu a primeira revista de tatuagem do país, a  Metalhead Tattoo. Depois veio a terceira, quarta edição das convenções, a segunda revista... Em cada convenção que a gente organizava, a gente fazia muita assessoria de imprensa, então além de ter um público legal, o evento era projetado constantemente na televisão, nos jornais, e as pessoas começaram a conhecer um pouquinho mais sobre tatuagens.

Tinha preconceito? Tinha, mas isso foi sendo quebrado e está sendo até hoje. Com essas iniciativas, as pessoas passaram a aceitar mais a tatuagem. Gente de praticamente todas as profissões começou a se tatuar e a tatuagem foi se inserindo na sociedade, foi ramificando. Hoje você não encontra uma profissão, pode ser de qualquer área, que não tenha algum profissional tatuado. Desde o juiz, o promotor, o advogado, o médico, o dentista, o esportista... em tudo quanto é profissão as pessoas têm tatuagem. E elas as estão mostrando mais. Com isso, estão quebrando qualquer tipo de preconceito.

As pessoas têm que entender que não é a tatuagem que faz o caráter da pessoa. Não é a tatuagem que vai mostrar a capacidade de cada um. A pessoa é capaz. Nós temos cientistas e pessoas importantíssimas na sociedade que têm tatuagem. A tatuagem não vai interferir no comportamento ou no resultado do trabalho dessa pessoa para a sociedade. Ela desempenha perfeitamente o seu ofício e tem a tatuagem como uma forma de adorno – assim como tem gente que gosta de um relógio, de uma corrente, assim como alguém gosta de vestir uma calça ou uma camisa legal... é a mesma coisa, você tem como uma jóia mesmo, é uma coisa bem pessoal.

“Tenho um tigre, uma flor de lótus, o símbolo do Reiki, uma guerreira com o rosto de minha esposa, uma lembrança de Cristo e um buda tibetano”

Sobre as minhas tatuagens, eu tenho um tigre, que é o meu signo no horóscopo chinês; tenho um dragão, que simboliza força e sabedoria, que tem aquela imponência. Para os orientais, o tigre também representa o equilíbrio, o yin-yang, porque sua a pelagem é clara rajada de escuro. Acho que é importante cada um de nós ter o equilíbrio.

Como eu gosto muito dessa parte espiritualista e conheço alguma coisa sobre isso – nós temos um campo energético com centros de força que, estando alinhados, vibrando em sintonia, mantêm o equilíbrio de saúde entre corpo e mente –, tatuei uma flor de lótus e um símbolo da energia universal, o símbolo do Reiki, que significa “chuva de energia” e é uma forma de canalizar energia. Para mim significa bastante, eu também aprendi a canalizá-la para passar para as pessoas.

Tenho uma guerreira – eu tenho muita afinidade com as coisas medievais. Nós pegamos uma foto da minha mulher, que é muito bonita e lembra uma guerreira, e fizemos o desenho sugerindo o rosto dela. Também tenho uma tatuagem que foi presente de um amigo austríaco. É um motivo que ele desenhou – tem um tigre, tem uma guerreira também, dragões medievais e uma caveira misturada com um dragão. Também tenho um guerreiro medieval.

Tenho ainda um mago nas costas. Gosto muito das coisas ocultas, da parte de ligação com o universo, essas coisas. Gosto de estudar, de pesquisar sobre o mundo em que a gente vive e os mundos que estão ao nosso alcance. Sempre pesquisei, eu gosto, é algo com o que eu tenho afinidade.

No braço, tenho uma serpente oriental que também foi presente de um amigo. Até existe um ensinamento que diz que nós temos que ter a prudência de uma serpente. Também tenho a lembrança do Cristo. Fiz uma homenagem a ele, porque acho que foi o espírito mais iluminado que já pisou na terra, o mais sábio, e está encaminhando a humanidade para um mundo melhor. Também tenho um buda tibetano, que foi um grande sábio que veio à terra e deixou grandes ensinamentos. Creio que ele também é um grande enviado de Deus, como o Cristo, para trazer as boas mensagens para a humanidade crescer e evoluir.

É isso, minhas tatuagens têm mais ou menos esses significados. Eu gosto de fazer tatuagens de coisas com as quais eu possa me sentir feliz.

“Ainda vou fazer mais tatuagens, mas me contenho”

Eu não conto mais as tatuagens que eu tenho porque com o passar do tempo elas vão se emendando – você faz um fundo, emenda com outra, então eu não conto. Eu não sou supersticioso e não me prendo a essas superstições que dizem que se você não faz tatuagens em número ímpar pode ter azar na sua vida. Para mim, isso não existe. A sorte ou o azar vem de acordo com o comportamento de cada um. Se você semear o bem, vai colher o bem, se semear o mal, vai colher o mal. São coisas que acontecem. Na maioria das vezes a gente sofre por conseqüência de algo que plantou. Se a gente está sofrendo não é Deus quem está causando o nosso sofrimento, somos nós mesmos.

Fui colocando as tatuagens onde eu achava bonito. Ainda vou fazer mais tatuagens. Mas tem certos lugares em que eu não fiz ainda porque me contenho. Tenho anos de profissão e tem gente que tem um terço, um quarto do tempo que eu levo tatuando e já está forrado de tatuagens, com o corpo cheio, não tem mais lugar para fazer.

A arte da tatuagem passa por várias fases, várias épocas e tem um avanço, um crescimento. Eu quero aproveitar um pouquinho de cada época para que possa ter esse espaço e fazer um pouco de cada avanço. Quero guardar um pouco para o futuro. Daqui a dez anos, se eu quiser fazer uma tatuagem, eu vou ter onde fazer.

“Sempre respeitei o gosto de cada cliente. Com a tatuagem, você satisfaz um desejo pessoal”

Acho que tatuar na verdade é um destino, uma missão. Eu acho que a gente vem meio predestinado e com isso o que nós temos que fazer vai despertando. Acho que na minha vida eu precisava aprender muito sobre relacionamentos com as pessoas, porque tatuar não é só você colocar a arte da tatuagem na pele da pessoa, você vai ter todo um convívio com muita gente diferente. Isso é muito bom para o crescimento pessoal: você lida com pessoas com vários tipos de comportamento, de caráter, e passa a compreendê-las. Acredito que nosso contato com as pessoas faz com que possamos crescer mais. Eu gosto desse contato humano.

Quando você tem um cliente, você tem esse contato, conversa, troca idéias, está sempre aprendendo ou ensinando alguma coisa nova. Você acaba aprendendo muito sobre cada um deles, se tornando até um psicólogo. É muito enriquecedor. Acho isso muito importante.

Acho que já fiz umas trinta mil tatuagens ou mais. Sempre respeitei o gosto de cada cliente, respeito a vontade de cada um. Com a tatuagem, você satisfaz um desejo pessoal. A pessoa quer realizar um sonho e você colabora para isso. Se a pessoa quer ter um desenho, eu não tenho o direito de ficar julgando o desenho dela. Se vai ficar bom em relação à técnica, à aplicação de cor, se a pele da pessoa é mais queimada ou menos queimada, se tem muito pêlo no local ou não, se o local em que ela vai fazer é bom porque acompanha a anatomia, sobre isso a gente até conversa. Mas em relação ao motivo eu procuro satisfazer o gosto daquela pessoa – é um sonho – e realizar o que ela quer.

Para mim, todas as pessoas são importantes. Desde aquela que vai fazer um kanjizinho, desde uma estrelinha que tenha só o contorno, até quem vai fazer um trabalho de costas inteiras, para mim todas são importantes. Todas. Vou tratar a pessoa que vai fazer uma estrelinha e a que vai fazer as costas inteiras da mesma forma. Assim como eu sou importante pra elas, elas são importantes pra mim.