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01 a 16 de dezembro de 2006
Equipe Edições Anteriores

RESIDÊNCIA RABISCO #02

TATUAGENS & TATUADOS
Raquel Bolsonaro Figueiredo, 53, é professora de educação infantil. Fez sua primeira tatuagem há quatro anos, acompanhada pelas filhas. A seguir, ela relata como isso mudou seu olhar sobre o tema
por Andréia Moroni (andreiamoroni@hotmail.com)

inhas filhas me deram um presente: fazer com que eu tivesse coragem de me tatuar e vencesse o preconceito”

Nunca tinha pensado em ter tatuagem. Gosto, acho bonito, gosto nos outros, mas em mim, não imaginava. Eu morria de medo, mas ao mesmo tempo queria muito, a vontade era grande. Por outro lado, costumava dizer: “Onde já se viu uma pessoa da minha idade se tatuando?”. Até que minhas duas filhas começaram a insistir para nós fazermos uma juntas.

Para mim, acho que a tatuagem está mais ligada à maternidade mesmo. Foi um convite irrecusável. Imagine, que mãe é convidada pelas filhas para fazer uma tatuagem? Achei que fosse ficar ridícula, mas decidi encarar.

A Bruna, a mais nova, fez o desenho, uma constelação de estrelas. A idéia era as três terem a mesma tatuagem, mas, quando ela me mostrou, imaginei que ficaria muito grande para mim. Então tatuei só um pedaço, enquanto que elas fizeram o motivo inteiro. A Bruna pôs no plexo solar, a Veridiana, no pé, e eu gravei na parte interna do tornozelo. O siginificado é a ligação que existe entre a gente, um elo bem forte. São quatro estrelas, que representam eu, meu marido Edgard e as meninas.

Nos tatuamos no dia 31 de março de 2002. Nessa época, as meninas estudavam fora, uma em São Paulo e a outra em  Presidente Prudente, e era difícil estarmos juntas. Elas tinham 20 e 21 anos, e eu, 49. Lembro que foi difícil nos encontrarmos para fazer a tatuagem. A Veri me encarregou de marcar hora no estúdio do Gatto Matto, em Campinas, onde moro, para as três poderem ir no mesmo horário.

Dói, mas não é uma dor insuportável, não é nada que te impeça de querer fazer. Acho que a vontade foi maior do que a dor.

“É um símbolo da relação que construí com minha família durante a vida”

A tatuagem não me incomodou, pelo contrário: passei a gostar muito dela. No começo achei meio estranho, mas aos poucos fui me acostumando justamente pelo significado, pelo que ela representa para nós. Escolhi colocar no tornozelo porque adoro olhar: cruzo a perna e posso ver o desenho. Visto um sapato, uma meia e acho que a tatuagem fica superbonita assim. Mas eu não sabia qual reação os outros teriam e isso me preocupava um pouco.

Na verdade, acho que nunca vi uma reação negativa, alguém que realmente tenha achado estranho. Talvez as pessoas se surpreendam um pouco, existe muita gente que diz: “Nossa! Você tem tatuagem!” Acredito que quem não gosta, não me fala. É claro que há pessoas que pensam assim, lembro de um episódio que foi até engraçado. Uma vez, a mãe de um aluno da escola onde trabalho virou para a dona Amélia, a diretora, que tem 84 anos, e falou, apontando para uma outra professora que também tem várias tatuagens e acabava de passar: “Dona Amélia, a senhora viu aquela pessoa cheia de tatuagens?” A dona Amélia olhou bem para ela e disse: “Mulher de opinião!” E virou as costas e deixou a mãe falando sozinha. Sempre tem alguém que fala, mas nunca ninguém me falou nada. 

Para mim, o que mudou é que agora tenho algo mais no corpo, um símbolo que marca o vínculo com a minha família, a relação que construímos durante a vida. Acho que ficou uma marca, e essa marca resultou na tatuagem. As meninas acham fantástico ter uma mãe tatuada e acredito que na verdade foram elas que realmente me deram um presente: fazer com que eu tivesse coragem de me tatuar e vencesse o preconceito.

“Mudei meu olhar em relação às pessoas que têm tatuagem”

Meus alunos, que têm três ou quatro anos, acham a tatuagem linda. Eu cruzo a perna e eles falam: “Olha! Você tem uma estrelinha!”. Acho que é divertido as crianças conviverem com alguém tatuado, o fato de elas terem uma professora, uma amiga que tem tatuagem rompe esse estigma – nem sei se o preconceito ainda existe. Hoje uma pessoa com tatuagem vive de uma forma normal e eles acham superinteressante eu ter uma estrelinha no pé.

Acredito que mudei meu olhar em relação às pessoas que têm tatuagem. Antes eu me espantava um pouco, agora eu acho lindo. Claro, depende da tatuagem. Acho que da tatuagem que deforma eu não gosto, como no caso de existir uma patologia ligada à transformação e à mutilação do corpo. Para mim, a tatuagem enfeita muito e tem que ser algo especial. Porque ela nunca vai sair, eu vou ser uma velha tatuada – e muito feliz com isso.

Depois de fazer a tatuagem, procurei ler um pouco sobre as civilizações antigas, sobre os índios do Havaí, sobre os Maias. Todos tinham tatuagens tribais no corpo, representativas da história de seus povos, que preservam e perpetuam suas raízes. Além da arte, há história por trás disso.

Eu até já cogitei fazer outras pequenininhas. Mas, como acho que a tatuagem tem que ser especial, não sei se vai existir alguma com um significado que supere o dessa que eu tenho.