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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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02 a 17 de janeiro de 2007
Equipe Edições Anteriores

RESIDÊNCIA RABISCO #03

ACONTECE NA VIDA, ACONTECE NOS FILMES
Uma crônica cinematográfica sobre o conflito “ex versus atual”
por Natalia Klein (blanca_nk@yahoo.com.br)

idéia era começar essa série com um tema mais abrangente, algo bem com cara de abertura, de início. Mas decidi começar mesmo pelo fim. A reviravolta se deu com um evento ocorrido outro dia, quando descobri que meu ex-namorado havia cortado todas as conexões virtuais que tínhamos. Como essas eram as únicas que restavam, concluí que tal atitude deveria ter um motivo.

Tudo começou quanto resolvi testar um advento que promete acusar as pessoas que nos excluíram do msn (ok, não se afobem, deixarei o link no final do artigo). A princípio, tratava-se de uma mera pesquisa, queria ver os limites da sociedade de controle, onde nem mesmo algo tão íntimo e privado, como a lista de pessoas que decidimos excluir de um chat virtual, pode ser mantido em sigilo. Tá, tá bom, mentira, queria mesmo saber quem eram os metidinhos que resolveram me excluir!

Mas, para a minha surpresa, junto a alguns nomes sem importância, estava lá o do meu ex. O próximo passo foi verificar o outro veículo de vigilância e inutilidade pública que chamamos de orkut. Batata! Estava excluidinha da silva e sem entender xongas do que estava se passando, afinal, éramos bons amigos.

Decidi satisfazer minha curiosidade e enviar um e-mail perguntando o que havia acontecido. A resposta veio rápida e rasteira: “Desculpe ter feito de forma tão brusca, mas não há outra coisa a dizer a não ser que minha namorada morre de ciúmes de você”, e com isso foi decretado o fim de qualquer comunicação entre eu e ele. Não que eu esperasse algum tipo de revival, longe disso, mas sempre achei saudável o contato que mantínhamos.

Comecei, então, a traçar uma genealogia do ódio pelas ex-namoradas – uso no feminino, porque, apesar do ciúme afetar tanto homens quanto mulheres, há entre a ex e a atual uma relação única e inconfundível, que somente as mulheres e os gays mais fervorosos são capazes de compreender. Trata-se da segunda principal característica que diferencia os sexos, a lei cruel que toda menina aprende desde cedo, por bem ou por mal: mulheres odeiam mulheres.

E isso fica evidente quando não há razão para a sociabilidade, como no caso das ex e das atuais. A única coisa que as novas namoradas querem das antigas é distância, quilômetros de distância. O sonho de todas as mulheres é que as ex se mudem para o Japão – exceto as japonesas, porque aí realmente não faz diferença nenhuma. Ou se a ex for parecida com a Scarlett Johansson e o seu namorado for chamado para gravar um comercial de whisky na terra do sol nascente, fiquem atentas para essa possibilidade.

Mas a distância nem sempre é garantia de paz. No filme “Flores Partidas”, de Jim Jarmusch, a personagem interpretada por Julie Delpy resolve deixar o namorado, vivido por Bill Murray, justamente por não conseguir lidar com a existência das ex-namoradas dele, mesmo sabendo que elas moram longe. A verdadeira crise começa logo depois disso, quando Don recebe uma carta não assinada de uma das inúmeras mulheres com quem se relacionou, comunicando ser ele o pai de um jovem de dezenove anos, o que mergulha o protagonista em uma busca pelo passado e o faz rever sua vida através de seus antigos relacionamentos.

Eu entendo perfeitamente a atitude da personagem. Assumo que sou ciumenta e sempre encarei as ex-namoradas com muita desconfiança. Mas ao me ver do outro lado da situação, percebi como é ruim quando a única forma de resolver o impasse é rompendo definitivamente relações. Não achei justo, muito pelo contrário, senti-me imensamente ofendida com tal postura. A decisão de me cortar dos meios digitais, como se dessa maneira eu estivesse sumindo da história dele, é boba e desnecessária. 

Isso me remete ao filme “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”, escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Gondry, onde os personagens recorrem a uma empresa chamada Lacuna para apagar do cérebro eventos específicos, como as lembranças de um antigo relacionamento, por exemplo. Joel Barish, personagem interpretado por Jim Carrey, decide deletar as lembranças de Clementine, sua ex-namorada, interpretada por Kate Winslet, ao saber que ela havia feito o mesmo. Até aí tudo bem. O problema é quando ele se arrepende da decisão tomada e trava uma verdadeira luta contra o procedimento de “lavagem seletiva” do cérebro.

A pergunta-chave do filme é: você me apagaria? E é exatamente assim que eu me sinto em relação ao que aconteceu – apagada da vida de alguém que fez parte da minha história. A premissa de “Brilho Eterno” é que, por mais que as pessoas tentem apagar as lembranças, de alguma forma, tudo vai acabar voltando, porque são elas que fazem de nós o que somos. Por mais irritantes que as ex-namoradas possam parecer, elas contribuíram para que seus namorados sejam essas pessoas que vocês tanto gostam.

Mas o grande enigma que permanece é como eu passei de “amiga-que-troca-e-mails-eventualmente” para “víbora-destruidora-de-lares”. Não faço a menor idéia. Fico me perguntando porque será que nutrimos essa antipatia incontrolável pelas ex, mesmo que elas nunca nos tenham feito nada de mal. Aliás, o fato de elas nunca nos terem feito nada de mal é ainda mais irritante! Filhas da mãe! Nós aqui loucas para odiá-las e elas nem dão motivo! Quem elas pensam que são, a madre Teresa?

E, por outro lado, há um certo rancorzinho velado das ex em relação às atuais. Claro que as circunstâncias do término da relação vão influenciar diretamente nos níveis desse rancor, mas uma coisa é certa, ele sempre vai existir. É inevitável. Homens e mulheres têm esse hábito pouco louvável – e muitíssimo enrustido – de fazer comparações. Então, meus caros, não é de se estranhar que isso seja tão corriqueiro entre os ex e atuais.

No filme “Rebecca – a mulher inesquecível”, baseado no romance de Daphne Du Maurier e dirigido por Hitchcock, o que vemos é o cúmulo do binômio ex/atual. Depois de se casar novamente, o viúvo Maxim de Winter, interpretado por Laurence Olivier (que na época ainda não ostentava o título de Sir), leva sua nova esposa à mansão que partilhava com a antiga sra. De Winter, uma mulher maravilhosa a quem todos tinham profunda adoração. Rebecca era perfeita, incomparável, inatingível e, apesar de morta, ainda vivia na casa, através das lembranças, dos hábitos, dos enfeites, das iniciais espalhadas por cada roupa de cama, lenço, toalha, sempre lembrando a nova sra. De Winter que ela jamais chegaria aos pés da falecida.

Mas se no fim das contas nem mesmo Rebecca é tão perfeita como pensávamos, não há razão para tanta celeuma. Ou será que é impossível outro tipo de comportamento? Será que o binômio ex/atual é fatalmente contraditório? É possível haver uma relação saudável entre atuais e ex-namoradas ou isso seria forçar demais a barra? Se essa antipatia for mesmo algo natural e imutável, a tendência é que as pessoas se odeiem em progressão geométrica. Imaginem comigo: Fulano e Fulana terminam, Fulano passa a namorar Sicrana, levando Fulana e Sicrana a se detestarem. Por uma eventualidade, Sicrana termina com Fulano e ele acaba se casando com Beltrana – essa última será duplamente odiada por Fulana e Sicrana, sendo, conseqüentemente, levada a também odiá-las. E assim vai. Confuso? Não tanto quando suas redes de relacionamento do orkut.

Aliás, para os que leram tudo isso só para obter aquela informação que eu prometi, chegou a hora! Não garanto a eficácia desse recurso, nem as conseqüências reais ou imaginárias que o uso dele poderá lhes trazer. Os que pularam direto para o último parágrafo, podem matar a curiosidade, mas voltem para ler o texto depois, sejam vocês do time das atuais ou das ex. (http://www.blockstatus.com/msn/delete-checker).