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18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007
Equipe Edições Anteriores

RESIDÊNCIA RABISCO #04

ACONTECE NA VIDA, ACONTECE NOS FILMES – 2
A efemeridade dos relacionamentos contemporâneos gera uma questão curiosa: somos elefantes ou peixinhos dourados?
por Natalia Klein (blanca_nk@yahoo.com.br)

á estamos carecas de saber que a sociedade contemporânea vive em um ritmo cada vez mais acelerado. As pessoas estão frenéticas, em uma busca incessante por novas experiências, que se esgotam em uma velocidade absurda. A própria relação que estabelecemos neste exato momento em que vocês lêem esse artigo é rápida e descomprometida, calcada no conceito de hipertexto. Aliás, o mundo está totalmente inserido nessa idéia, uma espécie de conexão interminável de pensamentos e vivências breves e intensas, mas inegavelmente superficiais.

Tomemos como exemplo as relações afetivas. Outro dia eu conheci um cara bem interessante. Saímos algumas vezes e depois a coisa foi ficando morna, até esfriar por completo. No começo fiquei me perguntando o que teria dado errado, mas não achava o ponto-chave, o momento em que a “curva da atração” parou o crescendo e iniciou a queda vertiginosa rumo à estaca zero.

Em Química, chama-se de sublimação a mudança do estado sólido para o gasoso, ou vice-versa. Nessa reflexão sobre a afetividade pós-moderna, o conceito cai como uma luva. Pensem comigo: duas pessoas se conhecem e ocorre um interesse recíproco, logo, a curva da atração começa a crescer, assim como a temperatura, até atingir um ponto crítico, em que o processo se reverte e chega-se ao Pólo Norte. Na verdade, eu diria que a curva não volta ao ponto inicial, mas a uma temperatura abaixo de zero.

Já tinha desencanado do sujeito quando o encontrei algumas semanas depois. Conversamos por algum tempo e embarcamos no mesmo processo de sublimação vivido anteriormente. Foi aí que me dei conta. O tal ponto crítico que desencadeia o resfriamento da atração não possui causa definida, a princípio. Ele ocorre simplesmente por prazo de expiração, como uma espécie de programa shareware que baixamos na internet e que só dura alguns dias em nosso computador.

É como se, de tempos em tempos, fosse necessário começar tudo de novo e viver uma experiência diferente. Ninguém se apega muito a ninguém, a lógica é a mesma do hipertexto. Para acumular o máximo possível de informação e experiências, é preciso nunca parar por muito tempo em um ponto, sempre continuar no processo de renovação (seguindo o lema “Keep Walking”). Mas o paradoxo reside no seguinte fato: para acumular é preciso, antes de tudo, deletar; sofrer uma espécie de amnésia temporária, ter memória curta mesmo.

O filme irlandês Goldfish Memory (em português, sob o título tosco de Todas as Cores do Amor), escrito e dirigido por Elizabeth Gill, trata justamente dos relacionamentos contemporâneos, livres, breves e intensos. O título tem um motivo. Um dos personagens do filme explica que a memória do peixinho dourado dura apenas três segundos, por isso, depois de dar uma pequena volta no aquário, tudo será novo. O mesmo se dá com os personagens ao longo da trama, que se encantam e se desencantam em uma rapidez espantosa, terminando uma relação e, imediatamente, dando início à próxima, sempre com o intuito de viver ao máximo cada uma delas.

E nesse universo onde nada é proibido, em que se deve dizer “sim para a vida, sim para o amor, sim para o prazer”, qualquer demonstração de apego se torna estranha, anormal e até intimidadora. A hipocrisia desse sistema é que existem regras muito claras, tais como nunca levar nada muito a sério, não pensar demais, não racionalizar, não fazer isso, não fazer aquilo, não, não, não – que se choca com a idéia de liberdade do sim.

Eu tenho uma memória de elefante, especialmente para fatos. Lembro com precisão cada palavra, ação, gesto. Descrevo tudo com minúcia, se for preciso. Sendo assim, fica difícil manter o frescor de quem não se lembra de nada. Seria mais fácil ser como os peixinhos dourados que, para cada vez que se encontram, é como se fosse a primeira vez.

Mas não são apenas os peixinhos dourados que sofrem dessa amnésia. No cinema temos alguns célebres personagens desmemoriados, como a também peixinha Dory, de Procurando Nemo, o obsessivo Leonard, de Amnésia – que registrava informações importantes em fotos de Polaroid e tatuagens espalhadas pelo corpo – e Lucy, personagem interpretada por Drew Barrymore na comédia Como se fosse a primeira vez.

Nesse filme, co-estrelado por Adam Sandler e Rob Schneider, após um acidente ocorrido há um ano, Lucy tem uma espécie de síndrome de peixinho dourado, só que em vez de três segundos, sua memória dura um dia. Assim, Henry (Adam Sandler) tem que reconquistá-la dia após dia, pelo resto de suas vidas. Quanto à mocinha, vive diariamente uma experiência completamente nova e única, de frescor inesgotável.

Mas em meio a essa ânsia pelo momento, esse frenesi causado pela necessidade insaciável de experimentar, fico me perguntando onde estará o romance. Talvez eu seja um pouco antiquada, mas às vezes sinto falta do bom e velho amor romântico, de sonhar acordada, de fazer planos para o final de semana que vem. Será possível, contudo, quebrar o paradigma do ponto de sublimação?

No filme Antes do Amanhecer, dirigido por Richard Linklater, dois jovens se conhecem em um trem na Europa e imediatamente sentem-se atraídos um pelo outro. Assim, Jesse, interpretado por Ethan Hawke, propõe a Celine, vivida por Julie Delpy, que ela desça junto com ele em Viena, para que possam continuar a conversa e se conhecer melhor. Celine aceita e os dois passam um dia perfeito juntos, mesmo sabendo que aquele provavelmente seria o único, já que cada um morava em um continente.

O que ocorre nesse exemplo coloca por terra a questão da sublimação. O dia em Viena deveria ser, segundo a lógica contemporânea, uma experiência de caráter intenso, porém breve, efêmero. Mas não foi o caso. Aquele dia resistiu nas lembranças dos personagens, que viriam a se reencontrar nove anos depois em Antes do Pôr-do-Sol. A seqüência conta, basicamente, com a mesma equipe, e nos mostra as conseqüências daquele encontro para os personagens. Apesar de cada um ter seguido com a vida, parte deles nunca havia deixado Viena.

Mas será que os dois estariam tão fixados um no outro se o romance tivesse durado mais que um dia? Não seria a própria efemeridade o ingrediente principal para a romantização? Com o tempo e a rotina, essa fantasia não seria desfeita?

Em Closer, Perto Demais, filme baseado na peça homônima de Patrick Marber, que também assina o roteiro do longa, e dirigido por Mike Nichols, acompanhamos a vida de quatro estranhos que se encontram casualmente. Alice (Natalie Portman) conhece Dan (Jude Law) que, por sua vez, conhece Anna (Julia Roberts) que acaba encontrando Larry (Clive Owen) por intermédio acidental de Dan. O filme trata justamente da ocasionalidade, da chance de conhecer um “perfeito estranho”, da atração instantânea. No decorrer da trama, percebemos que os personagens são reflexos da sociedade contemporânea e, por isso mesmo, buscam a experiência intensa e de rápido esgotamento, entediam-se facilmente, querem viver ao máximo. Só que, nesse processo, acabam tecendo uma teia em torno deles mesmos, emaranhando-se em um jogo de sedução e mentira.

Já em A Insustentável Leveza do Ser, baseado no livro de Milan Kundera e dirigido por Philip Kaufman, temos o protagonista Tomas, vivido por Daniel Day-Lewis, que possui uma vida afetiva livre, desapegada e mantém uma relação casual e puramente física com Sabine, interpretada por Lena Olin. Depois que conhece Tereza, modesta garçonete vivida por Juliette Binoche, Tomas se vê dividido entre uma vida moral, monógama e a vida livre que sempre defendeu.

Tanto em Closer quanto em A Insustentável Leveza, o que os personagens enfrentam são as conseqüências dessa vida desapegada e livre, que geram uma leveza incômoda, difícil de suportar. Talvez por ainda não estarmos prontos para lidar com ela ou talvez porque nunca estaremos. De certa forma somos pesados como os elefantes e lembramos demais. Mas, me apropriando da fala de um dos personagens de Goldfish Memory, se a cada novo relacionamento nós começamos do zero, então nunca mudamos, aprendemos ou crescemos, apenas repetimos os mesmos erros até morrer.