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04 a 19 de fevereiro de 2007
Equipe Edições Anteriores

RESIDÊNCIA RABISCO #05

ACONTECE NA VIDA, ACONTECE NOS FILMES
A volta para o lugar onde crescemos e a jornada em busca de nós mesmos
por Natalia Klein (blanca_nk@yahoo.com.br)

unca pensei que um dia tivesse vontade de visitar a cidade onde passei minha adolescência. É um daqueles lugares onde só existem, basicamente, três tipos de pessoa: você, alguém que você conhece e alguém que conhece alguém que você conhece. Todo mundo sabe da vida de todo mundo, sempre foi assim, muito antes do advento do orkut.

Foi por causa dessa claustrofobia social, somada a outras várias razões, que voltei para a vida metropolitana, agitada, caótica – e adianto que mesmo com o ar poluído, consigo respirar bem melhor por aqui.  No começo, achava que aquela parte da minha vida estava encerrada e que nunca mais voltaria a ver as pessoas daquela cidadezinha. Levei um bom tempo até achar um motivo razoável para visitá-las. A desculpa era a formatura de uma velha amiga, a qual eu havia prometido ir quando ainda morava lá. Promessa é dívida.

Mas no instante em que o avião pousou, eu já estava completamente arrependida de ter feito aquela viagem. Estava em pânico. Não via aquelas pessoas há séculos, não sabia o que esperar da visita e, o pior, não sabia o que esperavam de mim. Obviamente, depois de tanto tempo longe, eu seria bombardeada com perguntas do tipo: “O que você está fazendo da vida? Trabalhando? Namorando? Como vão as coisas?”, e teria que responder tudo isso de maneira a deixar bem claro que minha vida estava muito melhor.

Isso sem contar com minha aparência física. Ora, sejamos francos, a última coisa que alguém precisa ouvir em uma situação como essa é “nossa, você engordou” ou “como está pálido, abatido”. Não, não, de jeito nenhum! O que qualquer um de nós deseja são comentários positivos, sobre como estamos bem, saudáveis, felizes, ótimos.

No filme Melinda e Melinda, de Woody Allen, uma história é contada em duas versões – trágica e cômica. Na primeira, Melinda (Radha Mitchell) é uma mulher sofrida que volta para Nova York depois de anos afastada da família e dos amigos. Quando chega de surpresa em um jantar, todos se chocam com sua aparência abatida. Já na versão cômica, Melinda é uma mulher deslumbrante, que encanta todos a sua volta.

Eu não poderia chegar de surpresa naquela pequena cidade e assustar as pessoas com uma aparência detestável. Ao contrário, precisava estar fabulosa; assim como em Sabrina, filme de 1954, inspirado em uma peça teatral e dirigido por Billy Wilder, em que a protagonista, interpretada por Audrey Hepburn, volta para a cidade onde cresceu após uma temporada em Paris.

Anos antes, Sabrina Fairchild era apenas a filha do chofer de uma família muito rica e cultivava um único sonho: se casar com David Larrabee (William Holden), filho mais novo dos patrões de seu pai e um playboy clássico. Quando ela percebe que seu amor jamais será correspondido, muda-se para a França, onde amadurece e se torna mais autoconfiante.

Ao voltar para casa, ela já não é mais a mesma menina de antes e passa a chamar a atenção de seu velho amor, David, e, posteriormente, de Linus, o irmão mais velho, interpretado por Humphrey Bogart. Sabrina foi refilmado em 1995, dirigido por Sydney Pollack, com Harrison Ford, Julia Ormond e Greg Kinnear no elenco.

Mas cá entre nós, é bem mais fácil ficar linda e deslumbrante com um guarda-roupa assinado por Givenchy. Difícil é conseguir isso sem ajuda dos deuses da moda. Em Lar, Doce Lar, dirigido por Andy Tennant, a personagem Melanie Carmichael, vivida por Reese Witherspoon, é uma badalada estilista de Nova York, prestes a se casar com o filho da prefeita. Ninguém imagina que ela é, na verdade, Melanie Smooter, uma “caipira” do Alabama e, pior, casada. Para resolver esse impasse, a protagonista volta para sua velha cidade, depois de anos, para conseguir se divorciar.

Mas para sua surpresa, voltar para o Alabama a faz sentir-se em casa e tudo o que ela sempre tentou esquecer assume novas dimensões. As pessoas que antes considerava pequenas, medíocres, sem perspectivas, se tornam mais interessantes quando Melanie se dá conta de que seu passado é importante e não deve ser apagado.

Quando voltei para aquela cidade, também comecei a vê-la com outros olhos. Antes de viajar, não sabia se o meu medo era encontrar as coisas exatamente com eram ou perceber que tudo o que eu conhecia havia mudado.  Dos amigos que reencontrei, uns haviam casado, outros se tornaram muito religiosos, alguns se mostravam mais divertidos, outros mais maduros – todos estavam diferentes. Eu também estava. Meu guarda-roupa melhorou, tenho um novo corte de cabelo, meus hábitos mudaram, eu me sinto mais autoconfiante, mais segura. Minha vida mudou muito.

Ou será que não? Será que tudo isso era apenas uma fachada? Eu havia me reinventado como essa pessoa moderna, feliz, deslumbrante e patética, apavorada com a possibilidade das pessoas perceberem a fraude, morrendo de medo de voltar a ser aquela garotinha boba que se permitiu tantas vezes ser magoada. Era real ou eu estava apenas atuando?

Em O Conde de Monte Cristo, filme baseado no romance de Alexandre Dumas e dirigido por Kevin Reynolds, acompanhamos a história de Edmond Dantes (Jim Caviezel), um jovem ingênuo que é envolvido, sem se dar conta, em uma conspiração para colocar Napoleão de volta ao poder. Quando o plano é descoberto, Dantes é o único a sofrer conseqüências drásticas, sendo levado a uma prisão isolada onde passa anos sofrendo sem nem mesmo saber o porquê. A reviravolta ocorre com a chegada de Abbé Faria (Richard Harris), que passa a ser o mentor de Dantes. Graças a ele, o protagonista consegue escapar da prisão e encontrar a fortuna que financiará sua vingança.

Assim, Edmond Dantes retorna ao seu lar sob uma nova identidade, passando a ser conhecido como o Conde de Monte Cristo. O bom moço, cuja inocência fora tirada dele a força, volta assumindo um personagem e sua única motivação é punir aqueles que o fizeram sofrer, incluindo seu grande amor, Mercedès Iguanada (Dagmara Dominczyk). Mas, ironicamente, Mercedès é a única que consegue ver por detrás da máscara do conde, descobrindo a farsa e amolecendo o coração do herói.

Há ainda dois personagens de filmes recentes sobre esse tema que possuem uma função dramática semelhante à de Mercedès. A primeira é a Sam, de Hora de Voltar (Garden State). O filme, escrito e dirigido por Zach Braff, um tanto quanto autobiográfico, fala sobre a volta de Andrew Largeman (Braff) para Nova Jersey, onde não vai há quase dez anos. O motivo da visita é a morte de sua mãe e é esse o ponto de partida para a libertação do personagem, que vinha sendo tratado com lítio desde criança. E nessa jornada, Andrew reencontra velhos amigos e acaba conhecendo Sam (Natalie Portman), uma garota capaz de tirá-lo da monotonia e fazê-lo rir de suas próprias tragédias. É ela quem consegue enxergar o verdadeiro Andrew e dar cor a sua vida.

Outra personagem que segue essa mesma linha é a Claire de Tudo Acontece em Elizabethtown, dirigido por Cameron Crowe. O argumento é bem semelhante ao de Hora de Voltar e conta a história de Drew Baylor, um designer fracassado e com tendências suicidas que, após a morte de seu pai, volta à cidadezinha onde vivem seus parentes. No caminho, conhece a simpática aeromoça Claire (Kirsten Dunst), que o guia em uma viagem em busca de si mesmo.

Tanto Andrew quanto Drew (reparem que até os nomes são parecidos), são vistos como verdadeiros heróis em suas cidades. O primeiro é um ator de Hollywood, famoso por interpretar um retardado, e o outro é um designer de sapatos de uma grande companhia. Eles são uma versão masculina de Roxy Carmichael, do filme que vocês já devem ter visto uma centena de vezes na Sessão da Tarde – A Volta de Roxy Carmichael – dirigido por Jim Abrahams,que mostra o efeito provocado nas pessoas pelo retorno dessa celebridade local. Ficamos todos, personagens e espectadores aguardando ansiosamente por essa tal de Roxy, como quem espera Godot.

Quanto a mim, não pretendo me tornar uma Roxy. Muito pelo contrário. A preocupação em estar sempre ótima, de bem com vida, feliz, saudável é exaustiva. É claro que eu estava diferente, assim como a cidade. Heráclito faria um ótimo discurso sobre isso, diria algo sobre o homem nunca se banhar duas vezes no mesmo rio. Pois bem, é mais ou menos isso. Seria impossível que tudo fosse como antes. É como em Cinema Paradiso, escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore, que trata justamente desse choque do reencontro, da nostalgia.

Após quase trinta anos sem dar notícia, Salvatore volta para sua antiga casa na Sicília. Ao chegar, se depara com um lugar completamente diferente daquele de suas lembranças e, a partir daí, somos convidados a embarcar em uma viagem pela infância e adolescência do personagem, especialmente sua relação com Alfredo, o projecionista do cinema daquela pequena vila. Ao longo do filme, descobrimos que o motivo da volta de Salvatore é a morte de seu velho amigo.

O que me levou de volta à minha pequena cidade não foi vingança, nem a morte de um ente querido, mas sim, os amigos – vivinhos da silva. Esses eu quero manter para sempre. Percebi que não vale a pena apagar os anos que passei lá e começar de novo. Tudo o que vivi faz parte da minha história e não fugirei mais dela. Porque, no fundo, sou tudo isso, as mudanças e as conquistas que obtive aqui e cada pequeno momento que compartilhei com as pessoas lá. Voltarei mais vezes, para lembrar disso.