ENTRE A ELITE E A CLASSE MÉDIA
Perdizes, o morro elegante de Cardozo de Almeida.
Por Julie Krauniski – ( julieanne_26@hotmail.com )
ste bairro tem algo de peculiar para quem o conhece. Apesar de ser próximo à região central da cidade, seu ritmo é acolhedor; mescla as simplicidades familiares e a efervescência de metrópole. O bairro concentra o casual, o cultural e o intelectual em meio a clubes, parques, colégios, universidades, faculdades, restaurantes, flats, bares, livrarias, sebos, escolas de música, escritórios, entre outros. Tudo isso em uma estrutura urbana que foi suficiente no passado, mas que se tornou problemática para os dias de atuais.
Perdizes é cercado por importantes avenidas, como a Francisco Matarrazzo e a Sumaré – planas e de boa capacidade, porém, entre elas, o bairro se desenvolve em morro – na vertical. Os edifícios contribuem para a paisagem vertiginosa de alturas e depressões. Qualquer tentativa de horizonte é censurada pelas construções verticais. Os motoristas irritam-se com as ondulações errôneas do asfalto e os pedestres sentem-se inseguros ao se arriscarem nas ruas íngremes.
Marlene Fracchetta, 70 anos, nasceu na Aclimação. Com 12 anos mudou para a Pompéia e depois para Perdizes. Viveu nesta região durante 40 anos. Hoje, mora na Lapa. Numa conversa, ela nos conta suas experiências pelo bairro:
Eu estudava no Colégio Coração de Jesus e os alunos usavam uniforme e tênis branco. Era um sarro porque as ruas não eram asfaltadas, na verdade era só lama! Tínhamos que ir com um par de sapatos comum e calçar o outro quando chegássemos no colégio. A condução era muito difícil. Havia apenas quatro ônibus na região. No começo foi complicado porque eu estava acostumada com a Aclimação, um dos bairros mais bem estruturados da época. Era uma região residencial muito bonita, havia até ônibus elétrico. Contudo, meu pai trabalhava em uma fábrica metalúrgica na Pompéia, então, resolvemos nos mudar. A locomoção naquela época era difícil, acabava sendo muito desgastante para papai. Aliás, Pompéia era um bairro de operários devido às indústrias da família Matarazzo e outras que ali se instalaram.
A região era um morro só. A esquina da Afonso Bovero com a Apinagés era o ponto mais acentuado. Na década de 40, meu sogro e seus amigos caçavam veados nas ribanceiras da Guiará, uma rua no final da Tucuna. Apesar de ser um bairro próximo ao centro da cidade, seu desenvolvimento começou apenas na década de 50, por causa de sua geografia acidentada. Também por este motivo, faltava água, então, eu e minha mãe íamos buscar onde hoje é a escola municipal Zuleica. Ali era uma pequena chácara de portugueses e havia uma nascente até hoje existente, mas ela foi canalizada para abastecer a escola. O que resta corre na sarjeta.
A única rua asfaltada era a Avenida Pompéia. O resto era tudo barro, tudo morro de terra vermelha. A chuva corria até o Largo Pompéia e inundava a região do Palmeiras. Quando havia apenas o morro, a situação já não era muito boa. Depois de asfaltado então, nem a terra podia mais amenizar a enxurrada. Uma vez, peguei uma enchente na Turiassu e vi um menino e sua mãe serem tragados pela água.
Já a rua Cardoso de Almeida sempre foi um divisor de terras; marca onde termina o Pacaembu e onde começa Perdizes. Na rua há um ônibus elétrico chamado Machado de Assis que descia toda a Cardoso e seguia para a Aclimação. Sendo assim, era o principal meio para chegar ao centro da cidade. O Pacaembu era e ainda é um elegante bairro residencial. A partir da Cardoso de Almeida, notava-se o último vestígio de urbanização – os paralelepípedos. Depois, já não havia nada: somente barro e mato. Com a crescente urbanização e a saturação do Pacaembu, este espaço foi sendo ocupado primeiramente pela Cardoso e expandindo-se para Perdizes e região.
A Sumaré, outra importante via do bairro, não existia 30 anos atrás. No local havia apenas chácaras. Eu tinha uma amiga que teve a residência dividida ao meio pela avenida. O pai dela vendeu o que sobrou e montou um restaurante de comida alemã, ainda ativo no local. Os moradores ficaram desgostosos, mas foi necessário. O trânsito truncava na Turiassu e na Homem de Melo. Não tinha para onde ir.
Vivenciei bons momentos neste bairro, em especial a inauguração do Parque da Água Branca. Eu tinha apenas seis anos, mas lembro muito bem; Getúlio Vargas fez as honras e Carmem Miranda foi responsável pelo show. Enfim, após mais de 40 anos, posso dizer que cansei de Perdizes. Nem mesmo para ir à padaria as pessoas escapam de ladeiras. Já levei muitos tombos e rasguei algumas roupas na rua. Na minha idade, não há condições. Por este motivo, hoje moro na Lapa.
E agora, José?
Formado em direito na Faculdade do Largo de São Francisco em 1890, foi eleito deputado estadual em 1895 e nomeado Secretário da Justiça. Reeleito em 1901, exerceu também o cargo de Chefe de Polícia. Como Secretário do Interior, em 1903, prestou relevantes serviços a São Paulo. Depois de 1906, ocupou por alguns anos uma cadeira de deputado no Congresso Nacional. Fez parte também da Diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e, como se não bastasse, a rua que seria a espinha dorsal de Perdizes recebeu seu nome.
José Cardoso de Almeida faleceu em 1933. Mal ele sabia que a rua nomeada em sua homenagem seria a principal referência do bairro e tomaria proporções tão importantes para a região. Afinal, quem foi este José? Nos livros e fontes disponíveis, apenas uma citação histórica. No próprio bairro, ninguém sabe a resposta. A Subprefeitura da Lapa, que é responsável pelo bairro de Perdizes também não tem conhecimento de quem ele poderia ser e não sabe indicar um local para pesquisa. Talvez ele seja uma prova do descaso histórico paulistano. Aí eu pergunto: e agora, José? 
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